O Agente Secreto é mais que um filme, para um cinema nacional espremido na tela entre os filmes de ação americanos e a verborragia da escola europeia. Ao longo do tempo, tivemos bons momentos, filmes autorais marcantes e algumas tentativas de estabelecer uma escola, com Mário Peixoto, Humberto Mauro, Glauber Rocha ou Cacá Diegues de Bye Bye Brasil. Mas não construímos esta identidade, como Kleber Mendonça nos oferece desde O Som ao Redor, passando por Aquarius e Bacurau e, agora, com o apuro técnico de O Agente Secreto. O filme é uma proposta de cinema nacional ao estabelecer uma forma de nos ver, uma linguagem que nos captura e traduz. Nossa dificuldade de entender as coisas, a confusão que fazemos, as concessões morais, vícios ancestrais, afundados em rituais, de alegria e morte.

O Brasil inteiro na tela. Os mortos cobertos por jornal na rua, a corrupção da polícia, o abuso do poder, a confusão do carnaval e da chacina, um regime militar sem ideologia e afundado em trapaças e todos os males do Brasil podem ser atribuídos a uma perna cabeluda. Nada se explica, tudo se repete numa sucessão às vezes sem sentido, como se pode matar alguém por um trocado ou simplesmente porque usou a palavra errada. Essa aparente desconexão que muitos apontam como defeito é o melhor do filme. Tangencia Guimarães Rosa, além de toda geografia, e se assemelha ao Nobel norueguês Jon Fosse, que constrói com reticências e palavras nunca ditas o silêncio e a solidão dos fiordes. Entendemos o que nos alcança, lutamos pelas motivações mais diversas, somos dados ao engano, traímos, somos traídos. E não vamos mudar. Os pais carregam seus filhos, legítimos, ilegítimos, próximos ou de memória distante para cumprir seu destino. 01, 02 e 03 estão no filme. Tudo é difuso, como a memória borrada pelo tempo, agentes secretos de uma trama que não enxergamos. Tanto tempo depois ainda não entendemos. E se repete. Poderia ser como dizia Chicó, no Auto da Compadecida: Não sei. Só sei que foi assim.

Luiz Cláudio Latgé 

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