Viajando nos pensamentos, nas lembranças, na música que me tocava. Ficava olhando para a figura de Chet Backer. Ele era muito bonito. Se destruiu. Escuto o barulho do chuveiro do banheiro, no meio do pequeno corredor que dava para o meu quarto. Penso ir até lá. Entrar no banho com ela. Abraça-la nua, molhada, beija-la na boca embaixo da ducha, saliva e água. Não. Melhor não. Ela chegou há pouco de viagem, de Londres. Muitos meses sem vê-la. Não sei como ela se sente em relação a mim. Eu sei que ela conheceu alguém lá. Sinto. Eu a conheço bem. Seu riso. Alegre ou maroto ou sem graça. Conheço todos seus risos. Seu esgar de boca, quando fica nervosa. Ou sem graça. Ela aparece no esquadro das paredes. Parecia uma pintura. De corpo inteiro. Enrolada na toalha de banho, presa na altura dos seios. A de rosto prendendo os cabelos. Eu ali, deitado, a poucos metros dela, tentava decifrar o que eu sentia. Minha cabeça girando igual ao disco. A voz calma, introspectiva de Chet. E o som do seu trompete. – Estava ouvindo de lá, do banho… – Gostando? – Sinceramente não sei…você e seu jeito masô eventual … Ela abre o sorriso. Seus olhos estão muito verdes. São mais que os meus. – O que? Nunca me chamou assim…como seria em inglês? Algo como “sucker maso?”, ” maso fool”? – Sucker Punishment! – Não…muito complicado, como dizia Chet Backer, as coisas tem que ser exatas, mas simples, como o canto, como tocar uma música … – Posso deitar aí do seu lado? – Tem certeza? – Eu sei que vai respeitar! – Não garanto nada… Ela deita ao meu lado. Pega uma manta. Se cobre por cima da toalha molhada. – Está frio…que dia feio de outono, cinza, nublado, parece inverno, parece que nem saí de Londres, olhando pela janela aqui da Pompéia… – Está com saudade dele? ( começa a tocar “every time we say good bye” do Cole Porter). – Não começa…já disse que não tem ele nenhum…estou com saudade de você… – Seus olhos…as coisas tem que ser simples…como tocar…você….. O nosso beijo. Igual. Forte. As línguas dançam em nossas bocas. Tiro a coberta. As toalhas. Seu cabelo molhado, alto em cima, corte repicado atrás, ao estilo de David Bowie na capa de Alladin Sanne. Tiro o jeans, a malha, o corpo esquece o frio, rolamos pelo tapete. Somos um em dois de novo. – Posso deitar no seu ombro, como antes? – Pele e osso… – Gosto assim…muito musculoso fica duro…encaixa …E como estão suas filhas? – Bem…fui vê-las semana retrasada…você sabe, me dou bem com a mãe delas… – Sei…você se dá bem com todas! Por falar nisso, e você? Está namorando ou galinhando? – Não fala assim, sabe que não gosto dessa expressão chula! Estou ficando …vamos mudar de assunto …por que me chamou de masoquista eventual? – O som…sempre…Chet Backer ou João Gilberto! Logo eu que adoro punk! ( gargalha)…Quando nos conhecemos, quando fomos juntos, no show dele no Palace, a primeira vez até saímos juntos, junto com os meninos da banda do meu irmão… – Sim! Foi no dia 20 de agosto, três anos atrás, 85…fomos depois beber no bar do Hotel Maksoud …ele estava hospedado lá… – Sim! Como esquecer! Você viu uma movimentação estranha…notou…comentou eu lembro …no dia seguinte ficamos sabendo…você soube como jornalista …. – Sim …seu irmão também…a banda…quase morreu de overdose…heroína, barbitúricos, cocaína que arrumou com os músicos daqui…por um triz! ( começa a tocar “almost blue” de Elvis Costello, a voz de Chet). – Preciso ir …ver meu irmão! – Também tenho que trabalhar…vou chegar atrasado na TV, para variar … – Nos vestimos. Ela pede um táxi. Marcamos um jantar. Que seria o último antes dela retornar para Londres. Na porta, um beijo. Nos olhamos firmes. Pensei em cancelar o jantar. E sumir. Ela some no elevador. Era dia 13 de maio. Data da morte de Chet Backer. E talvez o fim de uma linda história de amor. ( O som de Chat Backer tocando Zíngaro de Tom Jobim, a letra eu canto …já conheço os passos dessa estrada…).Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro

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