

Um jornalista do diário “New York Times” perguntou ontem a Donald Trump:
“Existem limites para os seus poderes?”
Trump respondeu:
“Sim, só existe uma coisa. Minha própria moralidade. Minha própria mente. Só isso pode me deter. Não preciso de leis internacionais.”
Vejam só: um pedófilo falando em auto-moralidade.
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Logo lembrei da peça de Eugène Ionesco “O Rinoceronte”.
Escrita no pós-guerra, reflete de forma alegórica sobre os totalitarismos (nazismo e fascismo) e a conformidade em massa. A aceitação passiva do horror.
A peça se passa numa pequena cidade provinciana onde, subitamente, rinocerontes começam a aparecer.
Inicialmente, os habitantes vêem o fenômeno com curiosidade ou repulsa, mas aos poucos, as pessoas vão se transformando em rinocerontes, elas próprias.
O protagonista Berenger, um homem comum e um tanto apático, assiste a amigos, colegas de trabalho e autoridades aderirem à “rinocerontização”. No final, ele é o último humano a resistir, mesmo diante da solidão e da dúvida.
“Rinoceronte” é mais do que uma parábola política: é uma investigação existencial sobre a liberdade.
O grito final de Berenger – “Não me rendo!” – é trágico e ambíguo.
A peça nos obriga a perguntar: em que momento começa a transformação? Não com o chifre, mas com a primeira concessão ética, o primeiro discurso de ódio desculpado ou entendido como mera brincadeira, a primeira vez que se vê o absurdo e se cala. E nos resignamos apáticos e derrotados.
Hoje, podemos ridicularizar o rinoceronte Trump, mas não basta. Trump é a rinocerontização de nosso tempo. A apatia nos faz rinocerontes.
A resistência nos devolve à humanidade.
Imagem: Xilogravura do alemão Albrecht Dürer, de 1515. O quadro está no Museu Britânico, de Londres.
