Durante décadas, o Irã construiu sua estratégia de dissuasão em torno de três pilares:

seu programa nuclear,

mísseis balísticos

e suas redes de aliados regionais.

Mas esta guerra pode ter mudado completamente o cenário.

Pois agora Teerã tem outra carta na manga.

O Estreito de Ormuz.

E é uma carta de peso.

Segundo os relatos mais recentes, o tráfego marítimo pelo estreito caiu de aproximadamente 130 a 140 embarcações por dia, antes da guerra, para apenas seis em um dia recente.

O fluxo de petróleo também teria despencado.

Estimativas da Kpler situam o trânsito atual em cerca de 2,2 milhões de barris por dia, em comparação com os cerca de 20 milhões de barris diários de petróleo e derivados que passavam pela região antes do conflito.

Se esses números se confirmarem, estaremos diante de uma perturbação monumental.

E Teerã parece estar tentando transformar essa perturbação em uma ferramenta de negociação.

Há relatos de que o Irã está condicionando a reabertura total do estreito a um pacote muito mais amplo:

o fim da guerra e do bloqueio, a liberação de ativos iranianos congelados e um cessar-fogo regional que inclua também o Líbano e Gaza.

Em outras palavras:

Ormuz deixaria de ser apenas uma rota marítima.

Passaria a fazer parte do acordo de paz.

E aqui surge uma distinção importante.

O Irã e Omã podem estar avançando nas discussões sobre como permitir que embarcações específicas retomem o trânsito.

Mas isso não significa necessariamente que Teerã tenha concordado em reabrir totalmente o estreito.

A diplomacia continua.

Enquanto isso, a economia aguarda.

E então, surge a parte mais interessante.

Uma avaliação da inteligência militar dos EUA sugere que a prioridade estratégica do Irã pode estar se deslocando, cada vez mais, de seu programa nuclear para o controle do próprio Estreito de Ormuz.

Se essa interpretação estiver correta, estamos testemunhando uma mudança histórica.

Pois o Irã pode ter descoberto que não precisa de uma arma nuclear para exercer um imenso poder de dissuasão econômica.

Basta demonstrar que é capaz de colocar em risco uma das principais artérias energéticas do planeta.

É por isso que surge uma frase que resume perfeitamente o paradoxo:

“Ormuz é a arma nuclear deles.”

Não literalmente.

Não porque o estreito seja uma arma nuclear.

Mas porque o poder de influência econômica que ele proporciona pode ser extraordinário.

E isso coloca Donald Trump diante de uma decisão extremamente complicada.

Opção um: negociar.

Mas congelar uma guerra não significa resolvê-la.

Pode significar apenas que ambos os lados estão esperando.

Esperando que a economia do outro se desgaste.

Esperando que a situação política mude.

Esperando que surja uma oportunidade.

E, nesse meio-tempo, o estreito continua lá.

Ormuz não desapareceu.

Tornou-se a peça mais importante do tabuleiro.

E, se o Irã conseguir usá-lo para negociar o fim da guerra, poderá acabar provando algo muito mais desconfortável para Washington:

que uma potência regional não precisa dominar militarmente uma superpotência para fazer o mundo inteiro pagar o preço de uma guerra.

La Granja Humana

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *