“Não tenho o que comer.” A frase de uma aposentada de cerca de 70 anos resumiu o drama levado nesta quinta-feira (20) às portas do Ministério da Economia da Argentina, em Buenos Aires.

A chamada Marcha dos Endividados reuniu aposentados, trabalhadores, famílias, sindicatos e representantes de pequenas e médias empresas para denunciar uma realidade cada vez mais comum no país: recorrer a cartões, empréstimos e plataformas de crédito não para consumir, mas para pagar comida, contas e despesas básicas.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados do Banco Central argentino citados na mobilização, a inadimplência das famílias em empréstimos chegou a 12,7% em junho de 2026. Em outubro de 2024, era de 2,5%. Cerca de 5,8 milhões de pessoas já acumulam atrasos superiores a 90 dias.

Nas ruas, os números ganharam rostos. Um aposentado de 72 anos contou que precisou vender um imóvel para pagar dívidas.

Uma professora de 60 anos relatou, chorando, dificuldades financeiras enquanto cuida de uma filha com deficiência. Outra aposentada afirmou que recebe o benefício mínimo e vê praticamente todo o dinheiro desaparecer no mesmo dia para pagar parcelas.

Uma delas contou que chegou a pedir crédito para comprar comida.

Deve 1,7 milhão de pesos a uma plataforma financeira e disse ter reduzido sua alimentação praticamente a arroz e macarrão porque frutas e verduras ficaram fora do orçamento.

A crise também alcança as empresas. Representantes de pequenos e médios negócios afirmam que aproximadamente 30 mil empresas já fecharam e pedem medidas emergenciais diante da queda do consumo e do aumento dos custos.

No centro da manifestação estava uma mensagem dirigida ao ministro da Economia, Luis Caputo: “Meu salário não é sua variável de ajuste.”

O governo de Javier Milei rejeita uma intervenção estatal para socorrer os endividados, argumentando que as dívidas pertencem à relação entre particulares.

Enquanto isso, cerca de 30 projetos no Congresso argentino discutem alternativas como refinanciamento e redução de juros.

Na Argentina de 2026, o endividamento deixou de ser apenas uma questão financeira. Para milhões de pessoas, já chegou à mesa, e passou a decidir o que será possível comer.

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