É com muito pesar que recebi a notícia do falecimento do meu amigo Carlos Henrique Esquivel Bastos, ou simplesmente Bastinho. Obrigado pelo aprendizado você foi sem dúvida o farol para muitos jornalistas. Tive a satisfação de mostrar a ele uma crônica que escrevi no ano passado, durante oficina literária, a qual reproduzo aqui.

Carlos Bastos e o tempo da Legalidade

Quem convive com Carlos Henrique Esquivel Bastos aprende cedo que o tempo não é feito só de relógios ele também pulsa em palavras. Aos 91 anos, o Bastinhos, chamado carinhosamente por seus amigos e tantos admiradores, não esquece. Não por teimosia da memória, mas por fidelidade à história.

Assessor da presidência da Associação Riograndense de Imprensa, é uma das presenças mais lúcidas e reverenciadas no jornalismo gaúcho. Ao seu lado, nos corredores da ARI, o passado caminha com passos firmes. Quando fala, todos escutam. Não apenas por respeito, mas porque sabem: ali está uma testemunha viva do momento em que o Rio Grande do Sul decidiu peitar a sombra.

Bastinhos tinha apenas 27 anos quando a história correu ao seu encontro, no dia 25 de agosto de 1961.

“Bastos, tu estás indo para a redação? Então acelera o passo, que o Jânio renunciou!”

A frase veio de Silveira, o líder comunista, na Praça da Alfândega. Bastos sorriu com desdém talvez mais pela ousadia da notícia do que por descrença. Seguiu em direção à redação da Última Hora, sem saber que estava prestes a entrar no período mais intenso de sua vida. E talvez do país.

Naquele instante, o jornalista se misturou ao próprio espírito do Rio Grande. Cobriu com olhos abertos e dedos incansáveis o que viria a ser conhecido como o Movimento da Legalidade um levante cívico que não teve medo de tanques, mas confiou na palavra. E na rádio.

Durante dias, Bastos dormiu pouco, viveu muito, e registrou tudo. O Piratini virou sua trincheira. Comia num bastantão qualquer, tomava banho em casa e voltava. Sabia que a qualquer momento a história podia sussurrar mais uma exclusiva.

Na sua memória, há cenas que valem mais que mil manchetes.Como o Brizola pegando o microfone e denunciando: “Querem bombardear o Palácio.” Havia cinco mil pessoas na praça. Uma hora depois, eram cinquenta mil. Cinquenta mil gaúchos de pé, como muralhas vivas contra a arbitrariedade.

Bastos viu tudo. E não apenas viu entendeu.

Viu o general Machado Lopes se curvar à vontade do povo. Viu Brochado da Rocha, mancando atrás do carro do general, gritando como quem crava a história: “Viva o general da Legalidade!” E viu João Goulart hesitar, entre aceitar o parlamentarismo ou manter a ruptura com os golpistas. Viu até a vaia. A mais sonora que já ecoou em frente ao Palácio Piratini.

Quando Carlos Bastos caminhava pelos salões da ARI, havia algo mais em seu passo: a leveza de quem carregou muito. Quando fala dos dias da Legalidade, seus olhos não brilham apenas com saudade mas com responsabilidade.

Não é só memória. É missão.

Como presidente da Associação Riograndense de Imprensa, é impossível não reconhecer o valor simbólico de tê-lo por perto. Carlos Bastos não é um arquivo vivo é uma consciência presente. É a lembrança constante de que o jornalismo tem, sim, um papel que vai além da notícia: ele protege a democracia quando mais ninguém ousa. Na sua figura, o Rio Grande reverencia não só um jornalista, mas um farol. Um daqueles que, mesmo diante da escuridão que ameaçava descer sobre o Brasil, escolheu acender palavras. E nunca mais apagou

José Nunes

CERIMÔNIA DE DESPEDIDA DO NOBRE JORNALISTA CARLOS HENRIQUE ESQUIVEL BASTOS.

mbc

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