Definitivamente, o estado de espírito do Brasil na Copa do Mundo de 1986, poderia ser definido com uma única palavra: redenção. Um sentimento atávico. O desclassificação para a Itália, na Copa anterior, na Espanha, quando a seleção mostrou um futebol encantador, ainda estava na memória de todos: de torcedores, jornalistas e jogadores. Talvez isso possa ter colaborado para que alguns erros fossem cometidos, que ninguém quis enxergar. O treinador Telê Santana estava de volta. Todos sabiam que seria o canto do cisne, de uma geração incrível de jogadores geniais. A seleção não demonstrava, mas era um barril de pólvora em vários aspectos, por vários acontecimentos. O corte do Renato Gaúcho, a dissidência surpresa, do lateral Leandro, no dia do embarque. A via crucis do jogador mais venerado, com o problema crônico no joelho, que não dava segurança: o Zico. Soma-se a isso, a união do grupo não era a mesma de 82. O goleiro Leão, inconformado de ser o terceiro reserva. O zagueiro Edinho criticava o comportamento de alguns colegas. Tudo muito camuflado. Eu também não aguentei ficar isolado, e pedi que me arrumassem de qualquer jeito, um apartamento, para mim e meus companheiros no Hotel Holliday Inn, na cidade. As ilhas de edição também eram lá. Feito. Na minha primeira noite, pensei em comemorar, indo visitar, a seu convite, a repórter Ilse Scamparini, que já era minha amiga quando na Globo, ela chegando da TV Campinas. Estava num tipo de chalé, defronte as piscinas. Pedi para o motorista ir comprar o melhor vinho que achasse, me arrumei todo, e lá fui eu. Quando cheguei na varanda, a porta do apartamento entreaberta, lá estava Lucas Mendes, que também tinha tido a mesma ideia do vinho. Pelo meu gênio, deixei o vinho, pedi desculpas e, mesmo ouvindo para ficar, vazei. Fui até uma discoteca ao lado. Na mesma noite conheci uma moça de lá, a Rosalina, com quem namorei durante todo o evento, passando a dormir, eventualmente na casa dela, já que seus pais passavam as férias em Cancun. A cidade de Guadalajara se tornou uma farra. De torcedores e jornalistas brasileiros. Todas as noites, um grupo se reunia num bar chamado “Mezcaleria Cabrito’s, e que grupo, todos em mesas acopladas: João Ubaldo Ribeiro, Nelson Motta, Luís Fernando Veríssimo, João Saldanha, Oldemário Touguinhó, João Nogueira, Beth Carvalho, Danusa Leão, Patrícia Casé, Perfeito Fortuna, Alceu Valença, Antônio Maria Filho, Sérgio Cabral. Também bati ponto, com a Rosalina alucinada com tanto louco junto. O Circo Voador acampou na cidade. No apelidado Baixo Guadá. O Brasil venceu a Espanha, gol de Sócrates. Depois a Argélia e a Irlanda do Norte. Antes da goleada contra a Polônia, deu folga para os jogadores. Fui checar a concentração. O Casagrande me procura e pergunta se eu daria um jeito de levá-lo, com alguns, até o Circo, no show do Alceu Valença. Quantos?- “Eu, o Alemão, o Edson e o Julião( César)!”. Fui buscá-los, meia de ida e meia de volta, até o Parque Primavera. Com o Pablo. Não estava a trabalho, claro. No show, eles tiram a camisa, bebem cerveja, dançam e beijam. Estavam de folga, oras. Me chamam. Vejo um fotógrafo desconhecido. Os alerto. Não ligam. Eu saio do grupo. Com a Rosalina. O show termina, o Pablo os leva de volta. Eram 11 horas. Meia noite era o horário limite deles. Fui para o Cabrito’s. Depois para a casa da namorada. Preocupado. Não durmo. Sete da manhã. Volto para o hotel, entro de costas. Qualquer coisa estava saindo. Compro jornal, bingo! Lá estavam a foto deles, abraçados com as fãs, bebida nas mãos, sem camisa. Seriam punidos? Tomo banho voando e me mando para a concentração. Com o jornal na mão. Iria entrar ao vivo. A boca seca. Chego uma hora antes do treino, marcado para as nove. Com o jornal na mão. Lá, nunca esqueço, apenas um repórter: Wanderley Nogueira . D

O Luciano me chama. Mostro as fotos. O Rivellino me pergunta, dos estúdios na cidade do México, ao lado do Pelé e Clodoaldo, se achava que o acontecimento teria consequências, disse que poderia garantir que eles tinham chegado no horário. Garantir? Sim, posso! Eles riram. Mas não sabiam que eu fui responsável pelo transporte. Ninguém sabia. Só eu, o Mosca, o Pablo e…a Rô. Não teve crise, ainda mais depois da exibição nas oitavas. Chega o jogo contra a França. Alguns jogadores mostravam desgaste, como o próprio Sócrates. Mas foi um grande jogo. Eu nas arquibancadas, bem atrás do banco de reservas do Brasil. O Zico entra, de cara, mete uma bola para o lateral Branco, que sofre pênalti. O próprio, frio, bateu. Perdeu. Me disseram que antes do jogo, seu filho Bruno, tinha pedido para ele marcar um gol se entrasse. Não sei. Prorrogação. O Casa levanta, ao lado do Falcão, e grita na minha direção, já no alambrado, o Telê, finge não ouvir: ” Gilsão! Os caras estão morrendo! O “homem” tem que botar eu e o Muller! A gente ganha o jogo!”. Penais. Antes de bater, Júlio César atravessa o campo para fazer alguma necessidade. O Casa enlouquece. O zagueiro mete na trave. O Brasil de novo fora. No dia seguinte, despedida da concentração. Faço minha reportagem, me pauto. Vou dirigindo. Grava isso. E isso. Uma senhora, de traços indígenas, chora. Um repórter de uma Rádio de Minas também. Entrevisto o Branco. O Carlos. O Zico chora e dá autógrafo no ônibus. Que liga o motor. O câmera Mosca grita: ” “Vamos, Ribeiro! O comboio!”. Não! “Que?”. Não! Vamos ficar e finalmente entrar na concentração. Pegar o embarque? O avião decolando? Para uma frase de efeito? Vamos mostrar o que eles deixaram para trás. Assim fizemos. Os quartos. Quem dormia com quem. pratos vazios. O livro “Cem Anos de Solidão” na cabeceira do Enzo. O livro ” Viva o Povo Brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro, na cama do Sócrates esquecido. Faço uma passagem. No fim do encerramento, fechando o portão: “Sérgio desliga o VT, Mosca pode desligar a câmera, essa é a nossa última matéria no Parque Primavera”. Ponho o microfone no chão, já tinha pedido para o Mosca fechar. Faço a edição no hotel, em meio aos desmontes. O áudio da senhora e dos torcedores que cantaram “Ala Biba, ala Babo, ali bom ba, Brasil Brasil, sempre iremos te amar. Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro

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