Como repórter esportivo, tive a felicidade e a enorme responsabilidade de vivenciar a Seleção Brasileira, nos seus preparativos para cinco Copas do Mundo, por duas emissoras diferentes: Rede Globo e Rede Bandeirantes: 82, 86, 90, 94 e 98. Duas considero, e foram, mais marcantes pessoalmente: a de 86 no México e a de 94 nos EUA. Não que as outras não fossem, mas pela minha maior intensidade no acompanhamento delas. Se em 82, estivesse mais nas Eliminatórias, o Juarez Soares era o principal repórter em São Paulo, nas três subsequentes, já pela Band, era o principal encarregado de reportar a caminhada. E, com certeza, a cobertura tinha um abismo de diferenças em relação a este século. Em muitos aspectos, não poucos. Poderia aqui, mesmo com a intenção, por ora, de escrever em capítulos, começar por um tipo de introdução, mas correria o risco de fazer um tratado sociológico chato. Como todo tratado sociológico. Então, a partir dessa linha, vou tratar de forma corriqueira, de maneira aleatória, mais os bastidores, algumas experiências pessoais, retidas na memória. Posso também, cansar, e não levar adiante, não sei. Sei que acordei às 6 da manhã, e entre ler e escrever, optei em escrever. São muitos os fatos, alguns penso, curiosos e até hoje comentados, desde a fase das eliminatórias em 85. Portanto, direto ao México. Urgente. Cheguei na Cidade do México, oito meses depois que saí na véspera do trágico terremoto em setembro de 85, portanto no dia 22 de maio. Lembro que era uma quinta ou sexta-feira. A capital ainda estava longe estar totalmente reconstruída. A Copa levava um bálsamo de recuperação psíquica para o tão efusivo povo mexicano. Lá, permaneci dois dias, chegando no final de semana em Guadalajara, sede do Brasil. Éramos uma turma pequena, comandada pelo diretor de operações Teti Alfonso, a maior parte do pessoal da técnica para montar a base. Minha equipe, era o repórter cinematográfico José Carlos “Mosca” e o assistente Sérgio Vieira. Até que fui apresentado para aquele que seria o motorista da Van azul, o Pablo. Direto segui para chamado Parque Primavera, nas dependências de um retirado campus universitário, vazio, estabelecido para ser a concentração da seleção. Cerca de 35 minutos distante da cidade. Solidão total. A noite chegou um único jornalista: o Márcio Guedes. Instalaram a parabólica, o rádio, tudo no nosso enorme quarto de três camas bem separadas. Não era um hotel. Portanto, tinha um café da manhã contratado, básico, das 7hs às 9hs. Um almoço com um prato definido ao meio dia. À noite, nada. Só escuridão e barulho dos grilos. E de morcegos. Não gostei nada daquilo. Fui trabalhar na cidade, no sábado. Fiz uma grande compra: bolachas, sucos, frutas. E uísque, cerveja, tequila. Pedi para as duas funcionárias guardarem numa geladeira, no térreo, onde tinha a cozinha, salas e bibloteca. Parecia um castelo. (foto). A seleção só iria chegar no início da semana. Antes, começam a chegar os primeiros da delegação. Coordenador, cozinheiro, roupeiro e ele: Gata Mansa. Esse era o apelido de um funcionário da CBF, desde 1974, na Alemanha, o assessor de imprensa depois. (foto). Seu nome verdadeiro, Antônio Robério de Vieira e Silva. Na época com 36 anos. Gordo, estatura média, parecia um alemão, no entanto, um cearense da cidade de Mombaça, que migrou para o Rio e a acabou trabalhando no ” O Dia” e Rádio Continental. Até chegar na CBF. Bebia muito. Ficava vermelho até. Mesmo assim, por sua alma generosa e dócil, até bravo era engraçado, foi apelidado anos antes de Gata Mansa, por algum colega gaiato. O treinador Telê Santana o adorava. Os jogadores. A imprensa. Todos o adoravam. Até quando, sempre, bebia. Principalmente. A seleção chega. Se hospeda. Começa o trabalho duro. Tenso. O último jogo treino contra a Universidade local. Amadora. O estádio lota. O Brasil venceu por 3 a 1, dois gols de Careca e um do Casagrande. O zagueiro Mozer, foi cortado, devido a uma cirurgia no joelho, mesmo assim pede para ficar um pouco com o grupo, e vai para um chalé, afastado, num pasto de cabritos. Junto com Gata. Certa noite, pouco antes da estreia no dia 1 de junho, contra a Espanha, que o Brasil venceu por 1 a 0, gol do Sócrates, estou lendo entediado e bebendo na varanda, passa o Robério. O convido para beber comigo. Aceita de pronto, isso 8 da noite. Matamos uma garrafa de Tequila com cerveja e sal. Dez horas, ele mamado, vai para o seu chalé, trôpego. Meia hora depois passa o Mozer. Indo dormir. Uns duzentos metros dali. Quinze minutos, retorna branco, esbaforido: “Tem assombração nessa porra! Um cabrito falou comigo! “. Calma. Eu, com o Mosca e o Sérgio, fui ver. Quando lá, chegamos, era um cabrito preto, olhos brilhando no escuro, perto da janela do chalé que irradiava um pouco de luz. O cabrito ruminava. Melhor: dublava o Gata Mansa, que chapado, dormia numa vala atrás, falando bêbado no sono… ” então .. o Telê isso, o Zico aquilo. Parecia que era o cabrito! Risos. Assim começava a Copa para mim. Na fé. Até. Saravá. Até o próximo capítulo.

Se resolver continuar.

Gilson Ribeiro

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