
Há algo profundamente errado quando o fim de um relacionamento vira notícia policial. Amor deveria terminar com tristeza, talvez com silêncio, às vezes com lembranças boas e ruins misturadas — mas nunca com sirenes, perícia e fita de isolamento. No entanto, o Brasil se acostumou a ler, quase diariamente, histórias de mulheres que pagaram com a vida pela decisão de dizer “acabou”.
O país registra milhares de feminicídios todos os anos. E o Rio Grande do Sul, infelizmente, não está imune a essa realidade. Nos primeiros meses de cada ano, os números voltam a aparecer nas estatísticas como um lembrete cruel de que, para muitas mulheres, terminar um relacionamento ainda é um ato de risco.
O mais perturbador é que, na maioria dos casos, o assassino não é um desconhecido. Não é um crime de rua. É alguém que dizia amar. Alguém que dividia mesa, cama, projetos e promessas.
Quando o relacionamento termina, alguns homens parecem sofrer uma espécie de curto-circuito emocional. O amor, que deveria ser um sentimento de cuidado, vira sentimento de posse. E quando a posse é ameaçada, surge o desvario.
Há quem não aceite o simples fato de que ninguém pertence a ninguém.
Psicólogos e especialistas em violência doméstica apontam alguns padrões recorrentes nesses crimes: ciúme obsessivo, sentimento de humilhação com o fim do relacionamento, incapacidade de lidar com rejeição, histórico de controle sobre a parceira e, muitas vezes, um longo passado de violência psicológica ou física que já vinha sendo tolerado ou ignorado.
Em muitos casos, a tragédia não começa no dia do crime. Ela começa muito antes, em pequenas atitudes que foram normalizadas: a vigilância constante, a tentativa de controlar amizades, a desconfiança permanente, o medo dentro de casa.
O feminicídio raramente é um ato impulsivo isolado. Ele costuma ser o último capítulo de uma história de violência.
Nos últimos anos o Brasil avançou em algumas frentes importantes. A Lei Maria da Penha criou mecanismos de proteção. As medidas protetivas de urgência passaram a afastar agressores. Delegacias especializadas foram ampliadas. Tornozeleiras eletrônicas começaram a ser usadas para monitorar agressores em alguns estados. Há também programas de reeducação masculina e centros de atendimento às vítimas.
Mas ainda é pouco. A estrutura de proteção ainda sofre com carência de pessoal, lentidão judicial, falta de integração entre órgãos e dificuldades de acompanhamento das medidas protetivas. Em muitas cidades, inclusive no interior, delegacias especializadas não funcionam 24 horas. Casas de acolhimento são insuficientes. E o monitoramento de agressores ainda é limitado.
A pergunta inevitável surge: faltam recursos ou falta prioridade política? Provavelmente, um pouco dos dois. Mas muitas vezes falta algo mais simples: decisão política de tratar a violência contra a mulher como emergência social permanente, e não apenas como pauta que ganha indignação momentânea após uma tragédia.
Especialistas defendem algumas medidas que poderiam reduzir significativamente os casos: ampliação do monitoramento eletrônico de agressores, resposta policial mais rápida ao descumprimento de medidas protetivas, integração de bancos de dados judiciais, programas obrigatórios de reeducação para homens violentos e campanhas permanentes de educação emocional nas escolas. Porque o problema não começa apenas na delegacia. Ele começa na cultura.
Durante muito tempo ensinou-se aos homens que terminar um relacionamento era uma derrota, uma afronta ao orgulho. Que a mulher que decide ir embora “deve explicações”. Que o homem precisa “manter controle”. Nada disso é verdade. Relacionamentos terminam todos os dias. E deveriam terminar como coisas humanas terminam: com dor, talvez com discussão, mas com dignidade.
Um homem maduro entende que ninguém é obrigado a permanecer ao seu lado. O fim de um relacionamento não é humilhação. É apenas o fim de uma história. Quando alguém reage com violência ao término de um namoro, casamento ou união, não está defendendo o amor. Está revelando incapacidade emocional e profunda desumanidade.
E aqui talvez esteja a lição mais dura de todas. Quem não consegue compreender que o outro tem o direito de partir, quem não consegue aceitar o fim de um relacionamento sem transformar frustração em violência, quem não entende a barbárie que é tirar a vida de uma mulher por rejeição… Talvez não devesse sequer começar uma relação.
O fim de um relacionamento não é humilhação. É apenas o fim de uma história.

Vilnei Herbstrith
Jornalista