Um barco pequeno, o vento errado, e uma onda que não deu tempo de entender.

O corpo nunca voltou.

Desde aquele dia, o barulho das ondas deixou de ser música e virou lembrança.

Continuei morando na mesma casinha de madeira, bem na beira da praia.

Os vizinhos diziam que eu devia me mudar, “esquecer o mar”.

Mas como é que a gente esquece o lugar onde deixou o amor?

Eu acordava todo dia antes do sol, fazia o café, olhava pro horizonte e dizia:

“Volta, meu menino.”

E esperava.

Um fim de tarde, voltando da maré vazia, ouvi um gemido perto das pedras.

Achei que fosse o som do vento.

Mas quando cheguei perto, vi o cachorro.

Molhado, tremendo, o pelo branco manchado de sal.

Tentava subir o barranco, sem forças.

Peguei no colo.

O corpo dele era só osso e medo.

A respiração fraca, o olhar perdido — igual ao meu, no dia em que o mar engoliu o que eu tinha.

Levei pra casa.

Dei um banho com água morna, fiz uma cama com o casaco do meu filho.

Ele dormiu dois dias inteiros.

Chamei de Nuvem.

Porque chegou voando do nada e cobriu o vazio da minha vida.

Aos poucos, ele foi virando rotina: me acompanhava até o barco, esperava na areia enquanto eu lançava a rede, e me recebia com o rabo balançando quando eu voltava de mãos vazias.

Às vezes, ficava olhando o mar, atento, como se também esperasse alguém voltar.

Parecia entender que o mar devolve pouco — e cobra caro.

Certa manhã, o tempo virou rápido.

Eu estava no barco, e o vento veio pesado, do mesmo jeito que veio naquele dia.

Senti o medo voltando — o mesmo, idêntico.

Mas, na praia, vi o Nuvem.

Corria de um lado pro outro, latindo, chorando, como se gritasse pra eu voltar.

E voltei.

Não sei se foi instinto, amor ou milagre, mas cheguei a tempo de ver o céu cair atrás de mim.

Se não fosse ele, o mar teria levado outro.

Hoje, o Nuvem dorme aos meus pés.

Eu ainda falo com o mar — mas agora sem raiva.

Porque entendi que ele me tirou um filho, mas mandou outro tipo de companhia pra me lembrar que a vida continua, mesmo quando parece que não devia.

Na parede da varanda, pendurei a rede velha e, ao lado, uma foto:

eu, o mar e o cachorro olhando pro horizonte.

Embaixo, escrevi com tinta de pesca:

“O mar levou o que eu amava, mas me devolveu a vontade de amar de novo.”

Meu cachorro é o bicho

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