
Creio em Xangô. Continuo batendo a cabeça para Stella de Oxóssi e para o meu pai. Sou bom porque acredito mais no Candomblé do que sei. Respeito mais do que conhecimento tenho. Amo mais do que pratiquei nesses 25 anos de ogã. Alguma coisinha aprendi, nas obrigações, com os ogãs e ojés mais velhos, reparando as cuidadosas e silenciosas equedes, aprendi olhando Mãe Stella, atenta, vigilante, intransigente. Eu ouvi muito Stella em sua grandeza. A minha família toda católica, e eu também, e estou convencido de que a melhor herança que eu preservo é a dignidade de Jesus vivo, revolucionário, bonito, vigoroso, destemido, indignado, culto, humilde, forte e contra os ladrões da fé e do povo. Esse homem veio de um quasar de luz e a bendita Maria disse sim. Jesus vivo no que disse, de poderosa simplicidade, mantém a vida. Jesus morto serve aos que nunca pensaram no amor, na tristeza coletiva e pretendem manter a escravidão religiosa dos humildes. A mais cruel penitência que se aplica a cada um de nós é a submissão à dor do calvário. Jesus era livre. Jesus vivo ensina liberdade. O resto, dogma, falação, escrituras e loucuras de templos são bobagens, coisas de quem gosta de manter a sabedoria em cárcere privado. Jesus nunca se calou.

Fernando Coelho