
Terminado o programa Globo Esporte, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, ano de 1979, o diretor Ciro José resolve ir almoçar no restaurante Plataforma, no Leblon. Alguns editores, e dois repórteres: eu e Raul Quadros. Ainda não tinha intimidade com a cidade, ainda me fazia um caipira de Bauru. Lembro que chegamos, lá estavam os jornalistas Hedyl Valle Jr, Michel Laurence e, como convidados agregados, Sandro Moreyra e João Saldanha.

Pedidos feitos, couvert, chope, de repente, não mais que de repente, adentra nada mais, nada menos, do que o maestro Antônio Carlos Brasileiro Jobim. Quase caí da cadeira. Nunca imaginaria que veria na minha frente, um dia, Tom Jobim. Ele para, cumprimenta a todos, brinca com Saldanha, e se dirige a uma mesa perto da nossa. Eu olhando, disfarçado, de esguelha. Depois vim a saber que era sua mesa fixa. Um garçom de pronto corre para atende-lo. Depois vim a saber que o garçom também era fixo. Escuto ele dizer, acho que propositalmente, num tom um pouco mais elevado: ” Lucena, o chopinho, de sempre, mas hoje vou ser travesso, e um uísque. Escondido de mim mesmo”. Olhou para nosso grupo e deu uma risadinha. Adorei. Depois vim a saber, que sua companheira já, a Ana Lontra, já estava pegando no seu pé, para ele não beber muito. Dava uns botes de surpresa. Ele colocou o uísque na cadeira ao lado, escondido. Nunca me esqueci disso. Nesse ano ele tinha retornado de Nova Iorque, onde gravou o segundo álbum com a cantora Miúcha e também o duplo “Terra Brasilis”. A foto que aqui ilustra foi bem depois. Talvez o último registro, do Tom Jobim no Rio, feito pelo profissional do jornal “O Globo”, Leo Aversa. O gênio não podia beber, mas bebia moderadamente, no caso aí, um vinho português, ” Grão Vasco”, num copo banal, acho que no Bar Arataca, no Cobal. Era o mês de novembro de 1994. Voltou para Nova Iorque, até que em dezembro desse mesmo ano, nos deixou. Na verdade, sempre ficou. Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro