CASA DA MOEDA DOS EUA 🇺🇸

Uma investigação do New York Times revelou que o governo dos EUA está comprando ouro extraído ilegalmente pelo cartel colombiano e vendendo-o sob o rótulo “100% americano”, desencadeando uma crise de credibilidade e uma investigação oficial.

Bogotá, Colômbia – Uma investigação jornalística desencadeou um escândalo internacional ao revelar que a Casa da Moeda dos EUA adquiriu e converteu em moedas de investimento barras de ouro provenientes de minas ilegais controladas pelo Clã do Golfo, a maior organização narcoparamilitar da Colômbia. O caso expõe uma profunda contradição na política antidrogas dos EUA e levou o governo Trump a anunciar uma revisão urgente de seus mecanismos de abastecimento.

A reportagem investigativa, publicada em 26 de abril pelo The New York Times e liderada pelos repórteres Justin Scheck, Federico Ríos e Simón Posada, detalha como o metal precioso extraído em condições de extrema violência e devastação ambiental na mina “La Mandinga”, no município de Caucasia, Antioquia, acaba sendo lavado por meio de uma complexa cadeia de suprimentos até ser cunhado como moedas oficiais dos EUA.

A Trilha do Ouro Manchada de Sangue

A reportagem documenta meticulosamente a jornada do ouro. A mina “La Mandinga” opera ilegalmente com centenas de garimpeiros, inclusive dentro das instalações do 31º Batalhão de Infantaria de Rifles do Exército Colombiano. O Clã do Golfo, considerado uma organização terrorista pelos EUA, controla a extração e cobra de cada equipe de garimpeiros uma taxa mensal de US$ 400.

Ali, os mineiros usam mercúrio em um processo altamente tóxico que envenena os trabalhadores e contamina as fontes de água. No final do dia, eles vendem o ouro amalgamado para lojas locais, onde comerciantes, também expostos ao veneno, o derretem em lingotes. É nesse ponto que ocorre a primeira metamorfose: o ouro ilegal obtém documentação como se fosse proveniente de mineração artesanal em pequena escala, embora não atenda a nenhum dos requisitos legais.

Em seguida, os lingotes são exportados para os Estados Unidos. Empresas como a refinaria Dillon Gage, no Texas, recebem o ouro colombiano e o misturam com metal de outras fontes, incluindo casas de penhores mexicanas e peruanas, e até mesmo minas africanas com participação do Estado chinês. Essa mistura é a segunda metamorfose: quando combinado com ouro reciclado de joias americanas, o material perde sua rastreabilidade e, por meio de um critério legal flexível, passa a ser considerado “ouro americano”.

A etapa final ocorre quando grandes fornecedores, como a Asahi USA, que admite refinar ouro de vários países, o vendem para a Casa da Moeda dos EUA. A Casa da Moeda dos EUA usa esse ouro para cunhar suas famosas moedas de investimento American Gold Eagle, que são comercializadas como sendo “100% ouro americano”, uma exigência legal desde 1985.

Hipocrisia oficial: a Casa da Moeda mentiu

A investigação expõe uma mentira institucional. Inicialmente, um porta-voz da Casa da Moeda dos EUA disse ao Times que todo o seu ouro vinha dos Estados Unidos. Quando os jornalistas apresentaram as evidências, a Casa da Moeda revisou sua declaração, alegando que os EUA são a fonte “primária” do metal.

Uma auditoria do Inspetor Geral do Departamento do Tesouro, iniciada durante o primeiro mandato de Trump e arquivada por cinco anos, já havia alertado em 2024 que a Casa da Moeda “praticamente” nunca questionou seus fornecedores sobre a origem detalhada do ouro por duas décadas. A investigação também indica que até mesmo as novas moedas comemorativas com a efígie do presidente Trump podem conter ouro dessas mesmas fontes ilícitas.

Reações e Consequências

A revelação gerou uma tempestade política e diplomática. O Secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou uma investigação interna para salvaguardar “a segurança nacional e a integridade do mercado”. A Casa da Moeda Real Canadense também foi implicada em uma investigação paralela que a liga ao ouro dos cartéis colombianos.

Para o governo colombiano, o escândalo surge em um momento delicado. O presidente Gustavo Petro descreveu a situação como consequência de “maus funcionários a soldo das máfias” e defendeu sua política de mediação internacional para que o Clã do Golfo abandone as atividades ilícitas. No entanto, as evidências de que a mina operava dentro de uma base militar suscitaram críticas quanto à cumplicidade ou inação das forças de segurança colombianas.

Analistas e editoriais descreveram o caso como um exemplo da hipocrisia de Washington, que acusa e sanciona atores estrangeiros enquanto seu próprio sistema econômico absorve recursos gerados pelo crime organizado. A investigação não só questiona a ética do mercado de metais preciosos em tempos de preços recordes, como também revela como a dependência global do ouro acaba financiando indiretamente a violência e o terror que alega combater.


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