O presidente dos EUA, Donald Trump; o Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei; e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu | Crédito: AFP PHOTO / HO / KHAMENEI.IR

Fim da ONU?

Ataque ocorreu a despeito das negociações entre os países sobre a política nuclear

ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, na manhã deste sábado (28), se iniciou a despeito dos avanços recentes nas negociações entre os dois países sobre a política nuclear. A terceira rodada de diálogos entre EUA e Irã terminou nesta quinta-feira (26) em Genebra (Suíça), com “progressos significativos”, e uma nova estava prevista para ocorrer na semana que vem em Viena (Áustria).

A política nuclear foi a justificativa apontada em junho do ano passado, Washington realizou ataques contra três instalações nucleares iranianas, incluindo a usina subterrânea de enriquecimento de urânio em Fordow, o que desencadeou outro capítulo de conflito entre os dois países que durou 12 dias.

Neste novo capítulo das agressões do consórcio Estados Unidos-Israel contra o território iraniano, até o momento, não há notícias de instalações nucleares danificadas.

O analista político Marco Fernandes afirma que o ataque ocorreu em meio a negociações diplomáticas em andamento e repete um padrão que, segundo ele, já havia sido observado em outros momentos.

“Mais uma vez, EUA e Israel atacam o Irã durante negociações, de maneira traiçoeira, como fizeram na Guerra dos Doze Dias, em junho. Trata-se de mais um ataque não provocado, e, portanto, criminoso, em mais uma óbvia violação do já finado ‘direito internacional’”, diz o pesquisador. 

O pesquisador explica que o Irã já havia sinalizado disposição para permitir supervisão externa de seu programa nuclear. “O Irã já havia concordado em garantir o controle externo de seu programa nuclear pacífico, então esse ataque, nitidamente, tenta causar a chamada ‘mudança de regime’ no Irã, como aliás, já foi declarado publicamente por Trump e Netanyahu”, analisa. 

Apesar disso, Fernandes afirma que a ofensiva pode ter o efeito oposto ao pretendido e fortalecer o apoio interno ao governo iraniano, especialmente entre os mais jovens. “No entanto, esse ataque deve causar um efeito semelhante ao da Guerra dos Doze Dias, fortalecendo a unidade em torno do atual governo”, acrescenta.

Fernandes também avalia que a ofensiva representa uma aposta “arriscada” para o governo de Donald Trump, com potenciais custos políticos e econômicos. Em suas palavras, a possibilidade de mortes de militares estadunidenses e o impacto nos preços globais de energia, especialmente em caso de fechamento do Estreito de Ormuz, poderiam ampliar o desgaste da administração americana.

“EUA e Israel nunca enfrentaram forças tão poderosas como as do Irã, então, se a guerra de fato escalar, veremos um teste ao vivo e a cores sobre o real poder das forças armadas imperialistas e sionistas, provavelmente superestimado pela propaganda de ambos regimes. Inúmeros analistas militares vêm alertando, nos últimos dias, sobre a incapacidade de EUA e Israel se defenderem dos sofisticados mísseis balísticos e drones iranianos”, conclui. 

“Erro de cáculo”

Segundo Karime Cheaito, doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas, vinculado à Unesp, Unicamp e PUC-SP, “a escalada ocorre em um momento de contradição diplomática”.

A pesquisadora explica que a mediação conduzida por Omã no âmbito da ONU indicou um raro momento de convergência, com sinalizações concretas de negociação. No entanto, o ataque dos EUA e Israel enviou uma mensagem “contraditória” ao indicar que Washington mantém como prioridade a coerção, mesmo diante de avanços diplomáticos.

“Isso enfraquece os atores moderados e fortalece a percepção de que os Estados Unidos não buscam apenas conter o programa nuclear, mas reconfigurar o equilíbrio de poder no país”, afirma.

“Washington foi explícito em suas metas: eliminar ameaças imediatas, destruir a capacidade de mísseis, neutralizar a marinha iraniana e desarticular grupos aliados na região. Em suma, o objetivo é desmantelar a capacidade defensiva do território e remodelar a ordem política do país”, diz Cheaito.

Para a pesquisadora, essa postura revela um “erro de cálculo” da administração Trump. “A crença de que a ameaça de guerra forçaria uma rendição ignora um pilar fundamental de Teerã: o temor da rendição é maior do que o temor do conflito”, defende. 

A partir disso, “as estratégias iranianas precisam ser analisadas dentro do contexto histórico do país: para o Irã, sob sanções desde 1979, a resposta às constantes sanções e cercamento militar tem sido a estratégia de “anti-contenção”. 

Segundo ela, esse cenário reforça a lógica estratégica iraniana baseada no desgaste prolongado do adversário. “Para Teerã, resistir é uma forma de aumentar os custos políticos e militares para os Estados Unidos e seus aliados, criando incentivos para uma eventual desescalada em termos mais favoráveis ao Irã”, afirma.

Impactos e resposta do Irã

número de mortos após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã neste sábado (28) ultrapassou 200, segundo o Crescente Vermelho iraniano, que integra o movimento internacional da Cruz Vermelha. De acordo com a entidade, ao menos 201 pessoas morreram e 747 ficaram feridas. As ofensivas atingiram 24 províncias do país, e mais de 220 equipes de resgate foram mobilizadas para atuar nas áreas afetadas.

Entre os alvos atingidos está uma escola primária feminina em Minab, na província de Hormozgan, onde ao menos 85 meninas morreram, conforme a imprensa estatal iraniana. As operações de busca e resgate continuam em diferentes regiões do país.

As Forças de Defesa de Israel afirmaram que cerca de 200 caças participaram da operação e atacaram aproximadamente 500 alvos em todo o Irã, incluindo sistemas de defesa e lançadores de mísseis. Segundo os militares, os bombardeios miraram estruturas consideradas estratégicas. O governo israelense, porém, não se pronunciou sobre o ataque à escola primária que matou ao menos 85 meninas.

Em resposta às ofensivas, o Irã lançou ataques contra Israel e contra 14 bases militares dos Estados Unidos no Oriente Médio. Segundo a imprensa estatal iraniana, instalações militares estadunidenses no Bahrein, Jordânia, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita foram atingidas. A Guarda Revolucionária Islâmica também afirmou ter atacado um navio de apoio de combate da Marinha dos EUA, identificado como US MST.

Paralelamente, a Guarda Revolucionária anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz à navegação, segundo declaração do major general Ebrahim Jabari à emissora Al Mayadeen. A agência britânica de Operações de Comércio Marítimo informou ter recebido relatos de embarcações no Golfo Pérsico confirmando notificações sobre o fechamento da rota, considerada estratégica para o transporte global de petróleo.

Em entrevista à Al Jazeera, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, afirmou que o país tem o direito de se defender. “Temos todo o direito, de acordo com o direito internacional, de nos defendermos com todas as nossas forças. É isso que as nossas forças armadas estão fazendo neste momento. Elas estão defendendo a soberania nacional e a integridade territorial do Irã contra este ato bárbaro de agressão”, declarou. “Estamos enfrentando mais um ato de agressão não provocado, um ato de agressão flagrante imposto aos iranianos.”

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, também afirmou que o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, está vivo, em entrevista à NBC News. Segundo o chanceler, a maioria das autoridades iranianas permanece viva e ilesa, embora ele tenha reconhecido a morte de “um ou dois comandantes” nos ataques.

Em Israel, as Forças de Defesa informaram que sirenes de alerta aéreo foram acionadas em diversas regiões após a detecção de mísseis lançados do Irã. Os militares disseram que a força aérea atua para interceptar os projéteis e que realizou uma “ampla onda de ataques” contra sistemas estratégicos de defesa iranianos, incluindo um sistema avançado SA-65 na região de Kermanshah, no oeste do país.

Serviços de emergência israelenses relataram que um prédio no centro do país foi atingido por um míssil, além de outro ponto de impacto. Até o momento, não há confirmação oficial sobre vítimas nesses locais.

A escalada também atingiu outros países do Golfo. Em Dubai, um incêndio foi registrado nas proximidades do hotel Fairmont The Palm, após o que a emissora estatal IRIB classificou como impacto de mísseis. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram fogo ativo próximo ao edifício, sem indicação de danos à estrutura principal.

Na capital Abu Dhabi, explosões foram registradas nas proximidades da base aérea estadunidense Al Dhafra. Já no Kuwait, um drone atingiu o Aeroporto Internacional do Kuwait, causando ferimentos leves em funcionários e danos materiais limitados ao terminal de passageiros, segundo a autoridade de aviação civil do país. O local foi isolado, e os protocolos de emergência foram acionados.

Editado por: Rodrigo Chagas

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