
A Cidade do México aprovou uma mudança que mexe no coração de uma tradição centenária: as touradas poderão continuar, mas sem violência. Em 18 de março de 2025, o Congresso local votou de forma esmagadora (61 a 1) uma reforma que proíbe matar o touro e veta objetos perfurantes (como banderilhas, espadas e lanças), tentando substituir o modelo clássico por um formato chamado de “touradas sem violência”.
Na prática, o “novo espetáculo” limita o que pode acontecer na arena: em vez de ferir o animal, a apresentação fica restrita a movimentos com capote e muleta, além de medidas como proteção nos chifres para reduzir riscos de ferimentos em pessoas e outros animais. Também foram anunciados limites de tempo para a permanência do touro no ringue — a imprensa descreve regras variando entre 10 e 15 minutos, dependendo do detalhe citado por cada cobertura.
A decisão não surgiu do nada: a tauromaquia na capital vinha sendo alvo de disputa judicial e social. As corridas chegaram a ser suspensas em 2022 por decisão judicial, e o tema voltou com força depois de reviravoltas nos tribunais; nesse contexto, defensores da reforma destacam que, só na temporada de 2024 na cidade, dezenas de touros foram mortos (há relatos de 54). Para organizações de proteção animal, a lei é um “marco” por romper oficialmente com a lógica de sangue e morte.

Do outro lado, a crítica principal é que isso descaracteriza a tourada e pode tornar o evento inviável — algo que a própria Plaza México (a maior arena do mundo) chegou a afirmar publicamente, dizendo que “sem violência” a corrida perde o sentido e o público. Já a ala econômica do setor insiste no impacto sobre empregos e renda: associações e políticos citam números como 80 mil empregos diretos e 146 mil indiretos no país e uma indústria em torno de US$ 400 milhões/ano, embora esses dados sejam contestados por grupos anti-touradas.
No fim, a Cidade do México virou um “laboratório” de transição: tenta responder à pressão ética por bem-estar animal sem decretar um banimento total, o que explica por que a medida agrada parcialmente os ativistas (por reduzir a crueldade) e irrita profundamente os defensores da tauromaquia (por alterar a essência do ritual). É uma mudança histórica — e o debate agora tende a migrar para a pergunta que ninguém concorda: isso é uma nova forma de tourada, ou o começo do fim dela?
