
Que bata o bumbo! Que repique o tamborim. Ele no seu pandeiro. Gerson Nunes de Oliveira está completando 85 anos neste 11 de janeiro. Então vamos em forma de roteiro. Cena 1: termina um programa ao vivo, de uma mesa redonda especial, depois de um jogo da seleção, no estúdio 1, Morumbi, Rede Bandeirantes de Televisão. O coordenador Osvaldo Belo , também era proprietário de um bar pelos lados da USP. Convida alguns para irem para lá. Beber. Já de madrugada, o Belo, tinha essa mania, puxou as portas, fechou, escondeu a chave: “Ninguém sai!”. O ex-jogador, o saudoso Mário Sérgio, gostou. Mas a maioria estava exausta. O Gerson, manda: ” Tão de brincadeira! Vou falar então aqui, sem parar, até começarem a deitar no chão mesmo, dessa merda! Tá certo?”. O Belo olha para mim. Faço um aceno com a cabeça. E diz: “Acho melhor abrir a porta”. Cena 2: Cobertura internacional. Em algum lugar do mundo. No corredor passa o Datena brigando, como sempre.

O Gerson tocando numa caixa de sapato. Se junta ao grupo do meu flat, para tomar uma cerveja. E vendo a cena, comenta: ” Não sei não…acho que essa excursão vai dar em merda!”. Cena 3: Copa de 94, nos EUA. Depois de jogar em Detroit, a seleção parte rumo a Dallas. Lá também era a base das emissoras, do IBC. Recebo por telefone uma pauta assim: o Gerson vai encontrar, depois de anos, o Tostão. O compadre. Vamos registrar o encontro. A emoção. Com aquele texto seu.”. O Gerson viajou ao meu lado no avião. Não falei nada. Chegamos, fomos direto ao treino da seleção. Combino com o repórter cinematográfico Agnaldo Fonseca Rocha , tudo. Registra o Gerson chegando. Não importa se demorar. Depois edito. O encontro. Pronto. Lá estava o Tostão na beirada do campo. Olhando. Depois do problema que teve na retina, usando óculos, passou a ter um olhar meio enviesado. E eu lá, na expectativa, segurando o microfone direcional. O Gerson: ” Porra, Tusta! Me dê um abraço. Que saudade!”. O Tostão o abraça carinhosamente. O Gerson: E aí compadre…olha fixo…e manda: ” E esse olhar de pedir tabela?”. Quase caí, me controlando para não morrer de rir. Cena 4: O Gerson toca pandeiro comigo no meu quarto. Cena 5: Tarde da noite. Madrugada. Ligo para o Gerson. Deprimido. Choro. Digo que estava pensando em me matar. Do outro lado da linha: ” Calma, Ribeiro! Estava acordado. Mas vou te falar…não se mata agora, tão tarde. Espera ao menos amanhecer. De madrugada dá muito trabalho!”. Mandei ele se foder e desliguei. Cena 6: Numa noite. Atendo uma ligação. Era ele, chorava. Pela morte da sua filha na ponte Rio-Niterói. Ouvi o choro em silêncio. As lágrimas escorreram pelo meu rosto. Enfim: faz tempo que não nos vemos. Mas sei que continuamos amigos. E estamos vivos. Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro