Ex-consultor da ONU, Ladislau Dowbor afirma que taxa de juros no Brasil amplia desigualdades

 02/02/2026 | 15h11

As dificuldades da economia brasileira, frequentemente atribuídas à baixa produtividade ou à falta de mão de obra qualificada, têm origem mais profunda, e a taxa Selic a 15% ao ano é uma delas, segundo o economista Ladislau Dowbor, 84, ex-consultor da Organização das Nações Unidas (ONU). Em entrevista à Folha de S.Paulo, o professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) afirma que o principal entrave ao desenvolvimento do país é a desigualdade estrutural, intensificada por um sistema financeiro que privilegia a renda do capital em detrimento da produção.

“As pessoas têm imensa dificuldade em entender grandes números”, afirma Dowbor, que costuma traduzir estatísticas complexas em exemplos do cotidiano. Em um deles, relata como parte do pagamento feito a uma trabalhadora doméstica acaba, por meio de planos de saúde e sistemas financeiros digitalizados, chegando a grandes grupos internacionais, como a gestora BlackRock. O episódio ilustra, segundo ele, a lógica contemporânea do capitalismo financeiro, em que fluxos de renda sobem rapidamente da base da pirâmide social para o topo.

Autor de mais de 45 livros e vencedor do Prêmio Brasil de Economia de 2025, Dowbor sustenta que o Brasil produz riqueza suficiente para garantir bem-estar à população. O Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 12,3 trilhões, dividido pela população, equivaleria a cerca de R$ 20 mil mensais para uma família de quatro pessoas. O problema, diz, está na concentração. “Os 300 bilionários no Brasil têm muito dinheiro guardado”, observa.

O papel central da taxa Selic

Nesse contexto, a taxa básica de juros exerce papel central. Com a Selic em 15% ao ano, investidores muito ricos podem aplicar recursos em títulos públicos e obter retornos expressivos sem assumir riscos produtivos. “Sem produzir nada, esse bilionário vai ganhar mais de R$ 400 mil ao dia”, afirma Dowbor, ao exemplificar os ganhos de quem aplica R$ 1 bilhão em papéis atrelados aos juros básicos. Quanto maior o patrimônio, maior o benefício.

O efeito, segundo o economista, é perverso para o conjunto da economia. A alta remuneração financeira desestimula investimentos produtivos, enfraquece a demanda e reduz a geração de empregos. Empreendedores que tentam produzir enfrentam crédito caro — com juros de até 25% ao ano — enquanto têm, como alternativa, a compra de títulos públicos altamente rentáveis. “Ganha-se muito mais dinheiro através de processos financeiros do que produtivos”, resume.

Modelo se perpetua por razões políticas

Dowbor afirma que esse modelo se perpetua por razões políticas. Parlamentares e agentes públicos também seriam beneficiários do sistema, o que dificulta mudanças estruturais. O resultado é um ciclo econômico incompleto, no qual a renda não se distribui, o consumo não se fortalece e o investimento produtivo não se sustenta.

Para o economista, a saída passa pelo fortalecimento das políticas públicas e pela redefinição do papel do Estado. Investimentos em educação, saúde, saneamento e infraestrutura não deveriam ser tratados como gasto — aliás, como defende o presidente Lula (PT) —, mas como construção de “salário indireto”, capaz de elevar o bem-estar e dinamizar a economia. “Uma economia desigual não se desenvolve”, afirma.

Na avaliação de Dowbor, enquanto a Selic continuar funcionando como um mecanismo de transferência de renda para o topo da pirâmide, o país seguirá preso a um modelo que privilegia poucos, amplia desigualdades e limita o crescimento de longo prazo.

Foto: Divulgação

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