
Eu morava num bairro da Zona Oeste do Rio, daqueles que a prefeitura chama de “área de risco”. E naquele dia, o risco virou realidade: desapropriação. Despejo. Correria. Gente chorando. Móveis na rua.
Levei o que pude num caminhão emprestado. Meu cachorro, o Nino, entrou comigo. Mas quando paramos num ponto pra ajeitar a carga, ele pulou.
Voltou correndo pra casa. Ou melhor, pro que restava dela.
Voltei dias depois pra procurar. Encontrei os escombros. E no meio deles, o Nino. Deitado onde antes era o quarto. Sujo de poeira. Esperando.
Chamei. Ele abanou o rabo, mas não veio. Olhou pra mim como quem diz: “Você não entende. Aqui é onde tudo era.”

Passei a visitar todo dia. Levava comida, água. Conversava com ele. Até que um dia sentei no chão, do lado, e chorei. Ele botou a cabeça no meu colo.
Foi aí que me perdoou.
Hoje moramos num cantinho emprestado. Não é grande. Mas é nosso.
E toda vez que passamos perto da antiga rua, ele olha. Fica sério. Como quem lembra. Porque cachorro não esquece. E não abandona.
Mesmo quando tudo já caiu no chão.
