




“Nos tiraram a roupa e fizeram uma série de torturas: espancamentos, “telefone” (…), simulação de atos sexuais e chamaram todos os outros funcionários do DOPS para assistir. Deixaram-me em pé cerca de seis horas; deram-me choques elétricos. As mulheres eram torturadas com choques na vagina, seios e orelhas.”
“Fui colocada nua numa sala com cerca de 15 homens”, disse ela. A certa altura, a agarraram pelos seios e puseram uma tesoura em seu mamilo. Pressionavam e soltavam, e ameaçavam extirpá-lo. Também diziam que iriam matá-la.
“Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos. Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, um grito no escuro.”
Ousar lutar! Ousar vencer! Esquecer jamais!
Maria Auxiliadora Lara Barcelos!! Dodora Presente!!
Filha de Clélia Lara Barcellos e Waldemar de Lima Barcelos, Maria Auxiliadora Lara Barcelos nasceu no dia 25 de março de 1945, em Antônio Dias, Minas Gerais, onde seu pai trabalhava como agrimensor.
A profissão do pai a levou a regiões diversas: São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro e todos eram obrigados a acompanhá-lo em suas andanças. Para os filhos isso significou frequentar diversas escolas. Em Belo Horizonte, Dora estudou no Colégio Estadual Nossa Senhora de Fátima.
Seus avós haviam ajudado a organizar uma escolinha num bairro pobre. Dora, com 14 anos, junto com Maria Helena, sua irmã, lecionava nesta escolinha que ficava numa das favelas da cidade. Lecionaram por mais de dois anos, em contato permanente com a miséria dos moradores da favela, imigrantes de zonas rurais.
Quando era aluna do curso primário, Dorinha sonhava ser missionária. Quando moça, ela pensava em servir como médica no próprio Brasil ou no exterior.
Começou a estudar Medicina, na UFMG, em 1965. Durante o curso, começou a perceber a miséria que a cercava. Nos hospitais onde Dorinha trabalhou, como estudante, havia 80 pacientes em dormitórios planejados para 15 pessoas. Faltava alimentação adequada, os doentes eram submetidos ao penoso processo de choque elétrico e tratados mais como números do que como seres humanos. A partir daí, Dora começou a se rebelar.
Dora cursava o quinto ano de Medicina, na área de Psiquiatria, e dava plantões no Hospital Galba Veloso e no Pronto Socorro.
Em 1968 já atuava no movimento estudantil, quando resolveu abandonar o curso de medicina para se dedicar na luta contra a ditadura militar.
No dia 19 de março de 1969, Dora mudou-se para o Rio de Janeiro, entrando para a clandestinidade como militante da organização VAR-PALMARES. Dorinha usava os nomes de Maria Auxiliadora Montenegro e Maria Carolina Montenegro e os codinomes Dodora, Maria Alice, Maria Eugênia, Chica e Laura. Mesmo vivendo como clandestina, continuou enviando notícias, através de cartas, para sua família.
Dorinha foi presa no dia 21 de novembro de 1969 no Rio de Janeiro, em companhia de Antônio Roberto Espinoza e Chael Charles Schreier, na casa em que moravam na rua Aquidabã, 1053, em Lins de Vasconcelos, por denúncias de vizinhos.
Levados para o Quartel da PE na Vila Militar, foram bastante torturados e Chael, em consequência das torturas, morreu em menos de 24 horas de prisão, conforme testemunho de Dorinha.
Banida para o Chile, em 23 de janeiro de 1971, quando do sequestro do embaixador Suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, junto com outros 69 presos políticos brasileiros. Dorinha viajou acreditando que poderia levar uma vida normal estudando e trabalhando fazendo o que queria, lutando pelos oprimidos.
No Chile, que ela tanto amou, onde reencontrou a alegria, a esperança e a liberdade, voltou a estudar.
Em 1973, com a queda de Allende e o golpe militar, Dora teve que conseguir asilo político na embaixada do México, onde viveu 6 meses e trabalhou como intérprete.
Do México foi para a Bélgica e da Bélgica para a França, onde ficou 2 meses e, de lá, para a Alemanha, passando a viver em Colônia e a fazer um curso da língua alemã. Como aluna aplicada e estudiosa conseguiu ir para Berlim Ocidental, depois de passar, em primeiro lugar, no concurso de língua alemã, entre 600 estrangeiros.
Na Alemanha, finalmente, conseguiu dar prosseguimento ao curso de Medicina que, no Brasil, interrompera no 5° ano e no Chile não conseguira concluir.
Para conclusão do curso, com especialidade em Psiquiatria, pelo seu currículo, foi feita a exigência de que se submetesse a 24 provas, de 4 horas cada uma. Dora, com a coragem e disposição que lhe eram peculiares, dispôs-se a fazer as provas; recebia para isto, uma bolsa do governo alemão, que, era uma das maiores na época, e receberia até carro, a ponto de dispensar a ajuda familiar, que até então fora imprescindível.
Em 1976, precisou ser internada numa clínica psiquiátrica em Spandau devido a problemas emocionais. Embora tenha recebido alta, atirou-se nos trilhos de um trem na estação de metrô Charlottenburg, em Berlim Ocidental, em 01 de junho de 1976, morrendo instantaneamente. Foi a maneira de se libertar desse mundo cruel.
O governo alemão encarregou-se das providências e arcou com todas as despesas, desde que morreu até o traslado do seu corpo para o Brasil, além de conceder uma indenização que, a pedido de sua família, foi revertida em benefício dos seus companheiros que mais precisassem. Seu corpo foi cremado na Alemanha, trazido para o Brasil e enterrado em Belo Horizonte.
