
Saddam Hussein não foi morto por ser “teimoso”. Foi morto porque deixou de ser útil.
Durante anos, Saddam serviu aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Nos anos oitenta, quando o Irã virou o grande inimigo do Ocidente, o Iraque foi tratado como aliado conveniente. Washington apoiou politicamente, forneceu inteligência e ignorou abusos que já existiam. A moral nunca foi o critério. A utilidade, sim.
O problema começa quando Saddam decide agir por conta própria. Invade o Kuwait, desafia o equilíbrio regional, fala em soberania energética e deixa claro que não obedeceria mais ordens externas. A partir daí, a narrativa muda. O antigo “parceiro difícil” vira “ditador intolerável”. As mesmas práticas antes toleradas passam a ser usadas como justificativa para a sua eliminação.
O Iraque antes da queda de Saddam era um regime autoritário, mas um Estado funcional. Havia infraestrutura, controle territorial e instituições. Depois da intervenção americana, o país foi desmontado. O exército dissolvido, o poder fragmentado, o caos instalado. Democracia prometida não veio. Vieram milícias, terrorismo e instabilidade permanente.
Isso levanta uma pergunta incômoda, mas necessária:
as intervenções dos Estados Unidos realmente trouxeram estabilidade ou deixaram rastros de destruição?
Iraque, Líbia, Afeganistão. O padrão se repete. Derruba-se o líder. Some o Estado. O discurso é moral, mas o resultado é geopolítico.
Saddam Hussein não foi santo. Mas também não foi o monstro criado do nada. Ele foi parte de um jogo maior. Serviu enquanto obedeceu. Caiu quando deixou de servir.
E quem pagou o preço não foi ele. Foi o país inteiro.
