António Guterres afirmou publicamente que a ONU corre risco real de colapso financeiro iminente.

Não foi metáfora, não foi exagero, não foi força de expressão. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas disse, com todas as letras, que a instituição pode simplesmente não conseguir funcionar por falta de recursos. Pagar funcionários, manter missões, operar estruturas básicas. É isso que está em jogo.

Agora, entendido o fato, vem a parte que ninguém explica direito.

Uma organização que reúne praticamente todos os países do mundo, sustentada pelas maiores economias do planeta, não entra em colapso financeiro por acidente. Dinheiro existe. O que não existe é vontade política. Quando as contribuições começam a atrasar sistematicamente, quando grandes potências passam a ignorar compromissos, quando o caixa seca ao mesmo tempo em que os conflitos globais aumentam, isso deixa de ser crise e passa a ser estratégia.

O alerta de António Guterres soa menos como um pedido de ajuda e mais como um aviso de que o processo chegou à fase final. Primeiro se enfraquece a ONU por dentro. Depois se expõe publicamente a falência. Por fim, declara-se que o modelo “não funciona mais”. Esse roteiro não é novo. Já aconteceu com outras instituições ao longo da história.

E aqui entra a engrenagem que quase ninguém discute: o desaparecimento da ONU abre espaço para algo novo. Um novo organismo internacional, com outro nome, outro discurso, talvez vendido como “mais moderno”, “mais eficiente”, “menos burocrático”. Só que também menos universal, menos transparente e com decisões concentradas em poucos atores centrais.

A ONU, mesmo frágil, ainda cria constrangimento. Ainda expõe abusos. Ainda obriga potências a fingirem respeito a regras. Um novo órgão poderia nascer já adaptado a um mundo onde regras são flexíveis para alguns e rígidas para outros. Um sistema global redesenhado, não por voto, mas por poder.

Então a pergunta real não é se a ONU vai quebrar.

A pergunta é: ela está quebrando sozinha ou está sendo desmontada para dar lugar a algo pior, mais silencioso e mais controlado?

Se isso incomoda, ótimo. Porque o colapso financeiro não é o fim da história. É só o ponto em que o pano começa a cair.

Moz na Diáspora 

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