
Canela, na Serra Gaúcha, completa 81 anos de emancipação em 28 de dezembro de 2025. A história registra datas, decretos, fotos, nomes. Mas existe outra Canela, construída de cenas do cotidiano, com afetos e lembranças que não constam em publicações ou livros. É dessa Canela que falo, da minha Canela, onde respirei pela primeira vez e senti o perfume das flores, do jardim cultivado por minha mãe.
É impossível lembrar o início da cidade sem citar Heitor Trilha de Lemos, o primeiro delegado de polícia da região, sempre mencionado por Pedro Dias, fundador da Rádio Clube. Em começo de carreira, chegou a uma Canela pacata, onde não havia crimes. Segundo as histórias ouvidas em família, as poucas ocorrências envolviam furtos de galinhas. As “penas” não resultavam em prisão – até porque não havia nenhuma , mas eram convertidas em serviços prestados à comunidade. A vida seguia calma, havia paz. A tranquilidade habitava junto, nas casas sem trancas, sem grades, com janelas abertas e bicicletas estacionadas em qualquer lugar.
A esposa do delegado, a dona Wilma, era presença querida na comunidade. Os moradores costumavam levar “presentes”, quase sempre animais vivos. A casa, cercada por jardins com pés de camélia, parecia um cenário de contos infantis: um porquinho que tomava banho e andava solto, um macaco que imitava tudo — inclusive lustrar panelas — e até uma jaguatirica, mansa que mais parecia um gato doméstico. Ela fez parte da família até o dia em que foi abatida a tiros, por alguém da vizinhança, deixando uma tristeza profunda em quem a tratava com tanto cuidado e carinho.
Pelas matas da região, montada a cavalo, uma mulher de beleza estonteante costumava cavalgar acompanhada de um menino. A mulher era Maria Della Costa, modelo e atriz consagrada. O menino, Pedro Paulo, meu irmão. Cenas assim, faziam parte da paisagem de uma Canela ainda em formação.
Foi nesse cenário que cheguei ao mundo, pelas mãos do médico da família, doutor Zancoff, em um dia de abril. Minha mãe contava que ele anunciara a hora exata do nascimento. E, pontualmente, às cinco da manhã, teria dito: “De boca aberta não se tem filho”. Logo nasci, de parto fácil, sem milongas.Meu pai, em seguida, manda telegrama, informando aos familiares : ” Menina chegou”.
O inverno, porém, foi severo. O frio intenso, com temperaturas baixíssimas e até neve, não fez bem à recém-nascida, que passou a rejeitar o leite materno. O próprio médico aconselhou a saída de Canela para “salvar a menina”. Minha tia Lorena, que morava em Porto Alegre, ia de trem até Canela para ajudar a sua irmã, nesse período difícil.
Na capital, onde o frio era mais ameno, as mamadas voltavam ao normal. Ao retornar à serra, o problema reaparecia. Chegou-se ao ponto de minha tia, madrinha, levar-me nos braços até a Catedral de Pedra, em oração pela minha sobrevivência. A decisão foi inevitável. Com a transferência para Porto Alegre, a família deixou Canela.
Foi na capital que cresci, estudei e me formei. Mas Canela permaneceu enraizada, como a dizer: “não se esqueça de mim, não sou apenas uma lembrança, você também faz parte desta história”.
Ao celebrar seus 81 anos, Canela é lembrada por seus eventos, seu potencial turístico e seu crescimento. Mas também merece ser reconhecida por suas histórias desconhecidas, construídas por alicerces humanos. Histórias que vivem na memória — e também fazem parte da emancipação comemorada neste domingo.

Regina Lemos
Brasil é Brasil