
COPA DO MUNDO 2026
Por Thomas de Toledo
A seleção brasileira já foi um dos maiores símbolos da identidade nacional. Durante grande parte do século XX, era mais do que um time de futebol. Era a expressão da genialidade, da criatividade popular, da boa malandragem e do improviso que caracterizavam o futebol brasileiro.
Em 1958, 1962 e 1970, a seleção brasileira encantou o mundo com um futebol ofensivo e imprevisível. Foi o primeiro país tricampeão mundial e levou para casa a Taça Jules Rimet. Na Copa de 1982, mesmo sem conquistar o título, apresentou uma das equipes mais admiradas da história do esporte. Foi a expressão máxima do futebol-arte e daquilo que pode ser considerado o auge da seleção brasileira.
Em 1994, venceu com um estilo defensivo, refletindo uma tendência que já se consolidava no futebol europeu. Empolgou pouco, ganhou no pênalti pelo erro do adversário, mas garantiu o caneco.
Já em 2002, voltou a unir espetáculo e bons resultados. Havia o paulista, o carioca, o gaúcho, o pernambucano, o mineiro. O torcedor enxergava no campo um retrato do próprio país. Os jogadores pareciam próximos do povo. Sorriam, brincavam, davam entrevistas espontâneas e transmitiam a sensação de que ali estava presente o Brasil.
Ao longo das últimas décadas, porém, muita coisa mudou.
Uma das transformações mais profundas foi a progressiva europeização do futebol brasileiro. Desde os anos 1990, o futebol mundial caminhava para uma padronização inspirada no modelo europeu. Cada vez mais as equipes jogavam retrancadas, baseadas em rigidez tática, controle dos espaços, marcação intensiva e preparação física de alta intensidade. O futebol-arte, construído sobre improvisação, drible e criatividade, perdeu espaço para sistemas mecânicos e planejamentos táticos enfadonhos. João Saldanha já alertava para o risco de o Brasil abandonar aquilo que fazia de seu futebol algo único: o caráter ofensivo. O resultado foi uma diluição da identidade que havia encantado gerações.
Outro fator decisivo foi o desastre econômico provocado pela Lei Pelé e pela crescente internacionalização do mercado do futebol sob a égide do neoliberalismo. Pelé estabeleceu uma relação de subserviência à Europa com sua nova lei. Assim, grandes clubes europeus passaram a contratar jogadores cada vez mais jovens. Craques que antes construíam uma trajetória longa em seus clubes de origem passaram a deixar o país após uma ou duas temporadas. O torcedor perdeu a oportunidade de acompanhar o amadurecimento de seus ídolos. A seleção deixou de ser formada por jogadores conhecidos do grande público nacional e passou a reunir atletas cuja carreira se desenvolvia quase inteiramente no exterior.
O centro financeiro do futebol consolidou-se na Europa e resultou em um novo tipo de colonialismo esportivo. O Brasil tornou-se um fornecedor de matéria-prima para um mercado onde o jogador se valoriza, seja pela qualidade dos desafios, seja pela mera especulação em torno dele. O Brasil forma atletas, revela talentos e produz craques. A Europa compra esses jogadores, concentra os grandes campeonatos, atrai os patrocinadores, controla as maiores audiências e vende ao mundo o principal espetáculo do futebol. Os clubes brasileiros ficam cada vez mais dependentes de vender seus melhores jogadores antes mesmo de atingirem a maturidade esportiva.
A Copa de 2006 simbolizou exatamente essa nova fase. Os jogadores da seleção pareciam mais preocupados com compromissos com seus patrocinadores e campanhas publicitárias do que com o desempenho em campo. Aquela geração possuía talento suficiente para dominar o torneio, mas apresentou um futebol distante das expectativas. Em 2010, surgiu uma equipe disciplinada e competitiva, porém sem brilho. O encanto que sempre caracterizou a seleção parecia cada vez mais distante.
A Copa de 2014 representou o maior de todos os pontos de ruptura. O evento tinha potencial para se tornar um grande momento de união nacional, como ocorrera em outras épocas. O ambiente político do país, entretanto, encontrava-se cada vez mais polarizado após as manifestações de junho de 2013. Grupos de extrema-direita e de extrema-esquerda sabotavam a Copa de formas diferentes. O evento se tornou objeto de disputa política. O clima de celebração foi substituído por conflitos e ressentimentos.
Dentro de campo, o resultado foi traumático. O gol contra na estreia pareceu simbolizar exatamente o que estava acontecendo: um país se autossabotando. A derrota por 7 a 1 para a Alemanha permanece como a maior humilhação da história do futebol brasileiro. As explicações técnicas nunca pareceram suficientes para explicar a dimensão daquele desastre. Teria sido vendido o resultado? Teria a polarização política afetado psicologicamente o time? O fato é que poucos dias depois, a derrota por 3 a 0 para a Holanda encerrou de forma melancólica uma campanha que expôs fragilidades técnicas, emocionais e estruturais acumuladas ao longo de muitos anos.
A partir de 2015 surgiu outro fenômeno que afetou a relação entre a população e a seleção. A camisa amarelinha, que durante décadas foi um símbolo nacional compartilhado por brasileiros de diferentes origens e opiniões, passou a ser associada principalmente a grupos políticos de extrema-direita. Muitos cidadãos deixaram de utilizá-la para evitar identificação partidária. A seleção perdeu então sua capacidade de representar um espaço comum, acima das disputas ideológicas. Em outras palavras, um símbolo que antes unia passou a dividir.
As Copas de 2018 e 2022 ficaram marcadas pela centralidade na figura de Neymar, que se tornou o principal rosto da seleção durante mais de uma década. Sua imagem pública passou a gerar controvérsias constantes. Lesões, polêmicas, publicidade, celebridades, redes sociais, mansões, carros de luxo e debates políticos frequentemente ocuparam mais espaço no noticiário do que seu desempenho esportivo. A piada era fazer um bolão para apostar quanto tempo Neymar demoraria para cair em campo.
Torcedores passaram a enxergar uma distância crescente entre os jogadores e a realidade do país. A figura do ídolo popular foi substituída pela celebridade global. A ostentação de bens materiais contrastava com a realidade de um país que ainda convive com a pobreza. Adriano adorava mostrar sua coleção de relógios que custavam mais caro do que uma casa. Ele, assim como Robinho, Ronaldo Nazário, Ronaldinho Gaúcho e Daniel Alves, frequentemente exibiam ao público suas vidas extravagantes, estilo de vida luxuoso e, claro, a coleção de carrões. Neymar representou o auge desse comportamento. Constantemente esnobava suas Ferraris, Lamborghinis, Aston Martins, Bentleys e Rolls-Royces, além de iates, jatos particulares e mansões, algumas construídas inclusive em áreas de proteção ambiental. Nada, porém, simboliza melhor esse afastamento do que as imagens de jogadores e celebridades filmando e postando nas redes sociais refeições com carne folheada a ouro durante a Copa do Catar em 2022.
Além do mais, o acúmulo de escândalos sexuais e financeiros de repercussão internacional envolvendo jogadores também contribuiu para o distanciamento dos jogadores com relação à torcida. Robinho foi condenado por estupro na Itália. Daniel Alves enfrentou processo e condenação em primeira instância por agressão sexual na Espanha; depois, virou crente pregador “em nome de Jesus”. Neymar e Romário acumularam anos de manchetes sobre sonegações fiscais. Ronaldinho Gaúcho foi preso no Paraguai por uso de documentos falsos. Independentemente das diferenças entre cada caso, o efeito acumulado foi o mesmo: uma parte significativa do noticiário passou a associar a seleção a escândalos, polêmicas e processos judiciais em vez de associá-la ao futebol.
Esse distanciamento também se reflete no poder da propaganda sobre as novas gerações de torcedores. Milhões de jovens acompanham semanalmente os campeonatos europeus, enquanto demonstram cada vez menos interesse pelos clubes brasileiros. Isso ocorre porque boa parte dos canais esportivos, plataformas digitais e serviços de streaming dão muito mais destaque ao que vem do centro financeiro do futebol do que aos campeonatos disputados no Brasil.
Chegando a 2026, a crise permanece. A contratação de um técnico estrangeiro simboliza a busca por soluções externas para problemas internos. O modelo bem-sucedido de Ancelotti na Europa parece não se encaixar nas características do futebol brasileiro. A equipe ainda parece incapaz de recuperar uma identidade própria. Pressões de patrocinadores, interesses comerciais e das mídias parecem comandar as decisões da seleção. Precisava convocar Neymar, que está lesionado e sem ritmo de jogo? Isso tudo resulta numa seleção instável, sem o brilho e a confiança que marcaram outras épocas.
O problema central talvez seja mais econômico, político e cultural do que técnico. O Brasil perdeu parte de sua característica ofensiva sem conseguir construir uma nova identidade capaz de substituí-la. Os jogadores perderam sua conexão com o público. A seleção deixou de funcionar como um símbolo de unidade nacional, pois até a camisa amarelinha deixou de ser um ponto de encontro para todos os brasileiros. Ao mesmo tempo em que o futebol mundial mudou rapidamente, o Brasil segue em dificuldades para adaptar-se às novas exigências do esporte.
A seleção já teve Garrincha, Pelé, Gérson, Tostão, Rivellino, Jairzinho e tantos outros jogadores que representavam diferentes clubes e experiências do país. O torcedor via em campo um pedaço do Brasil. Hoje, muitos brasileiros sequer sabem em quais clubes nacionais vários convocados começaram suas carreiras. Essa mudança ajuda a explicar por que a identificação popular se enfraqueceu tanto nas últimas décadas.
A seleção brasileira continua possuindo talento, tradição e potencial para voltar ao topo. O desafio está em reconstruir aquilo que fez dela uma paixão nacional: a capacidade de representar o país dentro e fora de campo, unindo excelência técnica, criatividade, alegria e identificação popular. Isso exige mexer em estruturas profundas que vamos explorar em outro artigo.
Postado por

Miguel Baia Bargas