Disse que não sabia que a tal esquerda estivesse atacando o compositor pelas redes sociais, mas podia imaginar. Disse que pensava que só poderia estar relacionado com a entrevista que ele concedeu dias atrás para o mais importante jornal espanhol ” El País” que, coincidentemente, tinha lido na íntegra. E mais uma vez, nas suas ponderações, volto a me identificar. Vamos lá: “No momento a preocupação predomina em mim; às vezes uma espécie de desilusão. Tento evitar uma visão extremamente sonhadora da realidade. A música popular brasileira ainda representa uma das grandes forças culturais do país, mas as coisas estão tão feias hoje em dia…O Brasil parece que não pode ser salvo.” E continua: ” Mas ao mesmo tempo continuo com a sensação que o país pode dizer algo importante ao mundo, contribuir com uma presença diferente, uma outra sensibilidade. Esse sentimento não morreu dentro de mim”. Na tal entrevista, Caetano ainda se mostra indignado, revoltado quando vê pessoas defendendo a volta da ditadura militar”. Considera ultrajante. Relembra de quando foi perseguido e perguntado, lembra também das críticas que recebia da esquerda na época, causando alguma mágoa, mas sempre entendeu que fazia parte do debate cultural. Minha filha rebateu que não parecia ser por isso. Calma, deixa eu acabar. Não sou tipo Instagram! Ele ressaltou também: “Quando escrevi o livro “Verdade Tropical”, em 1997, disse que a esquerda devia dar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje me parecem excessivas a racialização, a sexualização e a ênfase em questões de gênero. Isso gera muita confusão”. Ela me pergunta o que eu achava. Respondo: “Você me conhece bem, minha filha! Minha história inclusive. Penso que se não preciso provar merda nenhuma á ninguém, imagine o Caetano com toda sua trajetória tão conhecida. Não que ele seja, nem ele se considera assim, o dono da verdade. Mas nunca foi omisso e sempre preservou sua independência de pensamento. Entrevistei algumas vezes, foi antes de tudo, muito enriquecedor. Não o adulei, de forma alguma. Também tive a oportunidade de trocar impressões em encontros pessoais, muitas vezes divergindo, mas sempre em alto nível. Enfim, como na sua canção antiga, certa vez coloquei isso para ele, como as pessoas são ou propositalmente idiotas ou idiotas mesmo, quando desviam totalmente as palavras claramente colocadas. Se elas vem com outras palavras. Mantenho as minhas.

Na fé. Até. Saravá. 

Gilson Ribeiro

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