

Certas coisas puxam outras. Ou levam. São fios invisíveis que tecem ou teceram nossas experiências emocionais e intelectuais. Um filme, um quadro, uma ilustração, uma peça de teatro. Um livro. Como um calendário pregado na memória, um novelo que nunca se faz ultrapassado. Ao escrever um texto, para ilustrar, lembrei de um livro com desenhos do genial e múltiplo artista Juarez Machado. Procuro na biblioteca e o acho. Mesmo um dia tendo comprado, visto, fico perplexo com o conteúdo ali mostrado. Como se fosse uma descoberta de um novo fio da meada. E ao folhear, de súbito, vendo os traços, as percepções ali transmitidas, me lembrei de um romance do escritor baiano Antônio Torres : ” Os Homens dos Pés Redondos”. Levanto, e também tiro o livro da estante de onde estava perfilado, bem organizado. Já tinha lido duas vezes de uma sentada: a primeira bem jovem, no ano de 1974, aos dezessete anos de idade. Na segunda, em 2019, quando recebi carinhosamente do escritor, quando contei, que uma antiga namorada tinha levado com ela, quando por mim foi emprestado. Para mim uma preciosidade, era do Círculo do Livro, que na época assinava. Com uma capa, lembro, impactante, não me recordo de qual ilustrador, talvez o Elifas Andreatto. Não cravo. Folheio, passo por alguns trechos por mim grafados a lápis, claro, e fico pensando na perenidade de certas obras quando trazem no seu entorno uma grande qualidade. O romance do Torres, continua com uma intrínseca atualidade, atraindo o leitor como um ímã. Em poucas linhas, uma sinopse: ele se passa num país fictício, Ibéria, uma alusão à época da ditadura salazarista em Portugal, onde o livro talvez tenha sido forjado. No entanto, mesmo nesse contexto, não se torna um livro estritamente político, enquanto radiografar as mazelas e infortúnios desses regimes opressivos. Vai além, numa escrita envolvente, que te carrega intimamente. Talvez uma das maiores qualidades do admirável escritor, é conseguir manter uma reciprocidade com o leitor, quase uma intimidade. Lembro que quando li seu primeiro romance, antes desse, também por volta de 1974, ” Um Cão Uivando para a Lua”, fiquei em transe, marcando minha adolescência, justamente por um certa conivência, mesmo sem tal experiência, com o que lia e assim ali me via. Voltemos à isca, os traços do Juarez Machado, também passam, de forma sutil, até bem humorada, as angústias e dúvidas, as dores íntimas, os dramas interiores na vivência, de certa forma, enclausurada. Os desenhos de Machado, minimalistas, mas potentes, fazem falta. Nenhuma I.A artificial conseguiria isso. A escrita de Torres, ao contrário de muitos romances de agora, que retratam a opressão dos regimes de força e seus males produzidos, tem a qualidade maior de se aprofundar de maneira sutil nas emoções interiores, sem se utilizar de maneirismos, sem ser prolixo. O desenhista, cenógrafo e ator, que lembro ter participado num tempo passado do programa Fantástico da Rede Globo, está vivo e morando num sítio no interior do Rio de Janeiro. O escritor Antônio Torres, quando não vai ao Rio, para as reuniões da ABL, ou outros afazeres, visitando Portugal, goza merecidamente, dos bons ares de Petrópolis. E neste lindo novelo feito, com eles ainda viajo, para dentro de mim mesmo.


Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro