


E Brando?- O tempo naquela manhã estava ótimo para as filmagens em Iver Heath, uma Villa em Buckinghamshire, na Inglaterra. Corria o ano de 1966 e o diretor de cinema Charlie Chaplin, efusivo, explicando como queria as cenas para a atriz italiana Sophia Loren, notou a falta do principal ator. Ficou nos nervos, andando em círculos, olhava no relógio de forma insistente. Depois de 45 minutos, chega como se nada estivesse acontecendo, o aguardado Marlon Brando. Chaplin foi ao seu encontro, e diante de toda a equipe, o esculachou: “- Se você pensa em chegar com esse atraso, outras vezes, saia desse set já e não volte mais!”. O já famoso ator, que tinha fama de genioso, rebelde, indisciplinado, se calou. Pior, somatizou arrependido e envergonhado e passou a só comer sorvetes. E não mais se atrasou para as gravações do filme “A Condessa de Hong Kong”. Era Chaplin. Mas o mesmo não se deu com vários outros cineastas como quem trabalhou. Como companheiro não tinha muitos desafetos. Ainda que não decorasse muitas vezes o texto, improvisava sem pestanejar. Foi assim, por exemplo, com Joseph Mankiewicz em ” Júlio César” e Bernardo Bertolucci no polêmico “Último Tango em Paris”. Para dar dois exemplos. Em compensação foi adorado pelos geniais Elia Kazan, com quem fez “Um bonde chamado Desejo”, ” Sindicato dos Ladrões” e “Viva Zapata”; e Francis Ford Copolla em ” O Poderoso Chefão” e ” Apocalipse Now”. Foi então Kowalski, Marco Antônio, Terry( seu primeiro Oscar), Emiliano, Bonaparte, Paul, Dom Vito e Coronel Kurtz. Entre tantos que incorporou. Nascido no dia 3 de abril de 1924, desde de pequeno, na escola, em Omaha, no estado de Nebraska, já mostrava aptidão como ator. Imitava seus colegas. Quase foi expulso quando estudou num colégio militar em Chicago. Foi morar em Nova York, onde deslanchou. Estudou os métodos do russo Stanislavski, mas detestou o professor Lee Strasberg do lendário Actor’s Studio. Dizia que aprendeu com Stella Adams e Elia Kazan. Quando recebeu o seu segundo Oscar, pelo ” O Poderoso Chefão”, não compareceu, mandando uma ativista indígena no seu lugar. Foi ativista pelos direitos civis. Era considerado de esquerda. Tinha muitos problemas, em todos os sentidos. Mas considerado até hoje como um dos maiores do teatro e do cinema. Uma filha que se matou. Um filho preso. Depois do suicidio da sua filha e da prisão do filho, morou no Taiti, na Polinésia Francesa. Morreu em Los Angeles, aos 80 anos, em julho de 2004. Marlon não foi nada brando. Mas deixou uma grande história e legado. Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro