Ontem, foi aprovada a nova reforma trabalhista impulsionada pelo governo de Javier Milei. Entre as mudanças discutidas estão ampliação da flexibilidade de jornada, alteração nas regras de horas extras, ajustes em indenizações e reconfiguração de direitos trabalhistas históricos. Para os defensores da medida, trata-se de modernização da economia e tentativa de atrair investimentos num país que vive há décadas sob inflação crônica, dívida elevada e estagnação produtiva. Para os críticos, é precarização acelerada e transferência de risco do empregador para o trabalhador.

O discurso do governo é claro: menos rigidez, mais mercado, mais competitividade. A lógica é que direitos trabalhistas considerados “custos elevados” afastam empresas, travam contratações e sufocam crescimento. O problema é que essa visão ignora o impacto social imediato. Quando se amplia jornada, flexibiliza compensações e reduz garantias, o peso recai diretamente sobre quem depende do salário para sobreviver.

Há dois campos visíveis na Argentina neste momento. De um lado, o setor financeiro e parte do empresariado, que veem na reforma a chance de reduzir custos e aumentar margem de lucro. De outro, trabalhadores e sindicatos que enxergam erosão de proteção social num país já fragilizado economicamente. O conflito não é apenas econômico. É ideológico. É sobre qual modelo de Estado deve prevalecer.

Mas existe uma questão central que não pode ser ignorada: Javier Milei foi eleito. E seu partido consolidou apoio legislativo. O programa liberal radical nunca foi escondido. A promessa sempre foi cortar gastos, reduzir o Estado e flexibilizar regras. O choque não está na coerência do governo. Está no impacto real quando a teoria vira prática.

A Argentina está vivendo um experimento econômico profundo. Pode gerar crescimento no médio prazo? Possivelmente. Pode ampliar desigualdade no curto prazo? Também. Reformas estruturais quase nunca são indolores. A pergunta que fica é: qual será o custo social dessa transição e quem vai suportar o peso maior?

Para o Brasil, a lição não é copiar ou demonizar automaticamente. A lição é entender que cada escolha eleitoral carrega consequências concretas. Modelos econômicos diferentes produzem resultados diferentes — e também impactos sociais diferentes. O debate precisa ser informado, não emocional.

Porque no fim das contas, o que está em jogo não é apenas política. É a vida cotidiana de milhões de pessoas.

Moz na Diáspora

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