
Ainda tava escuro, e já tinha fila na porta do posto.
O cachorro veio junto porque não tinha com quem deixar.
Coloquei ele no pano que uso pra feira e levei debaixo do braço, como quem leva um pedaço de si.
Na triagem, pedi pra entrar com ele, mas a moça só balançou a cabeça.
“Não pode, senhora.”
Deixei ele amarrado do lado de fora, na sombra, com uma garrafinha de água e um pedaço de pão dormido que trouxe na bolsa.
Lá dentro, tudo demora.
Chamam, esperam, voltam, preenchem papel, esperam mais.
E eu só pensava se ele ainda tava ali.
Imaginava ele puxando a cordinha, latindo baixo, deitando no chão quente.
Quando finalmente me liberaram, saí correndo.
E lá estava ele.
No mesmo lugar.
Sentado torto, com a cabeça baixa, mas o olho fixo na porta como se soubesse que eu ia voltar.
Quando me viu, não latiu.
Só se levantou e encostou o corpo no meu, daquele jeito que só quem ama faz — sem barulho, sem explicação, só presença.
Fiquei ali ajoelhada com ele um tempo, no meio do sol e do concreto.
Muita gente passou e olhou.
Alguns sorriram, outros nem notaram.
Mas pra mim, aquilo foi o que segurou o dia.
Porque o remédio vai demorar, o tratamento também.
Mas o que cura primeiro é saber que alguém te esperou — do lado de fora, no calor, com fome… mas não desistiu.
