Hoje, quero comentar – rapidamente – o resultado patético da Conferência de Segurança de Munique, realizada na última semana na Europa.

O resultado é desolador, para não dizer trágico. Líderes europeus (todos de direita) criticaram com alguma firmeza as ações tresloucadas de Donald Trump.

Mas – ao fim e ao cabo – a firmeza demonstrada acabou se assemelhando à consistência da gelatina sabor artificial morango.

Farsa completa, admissão tácita da nova condição de neocolônia dos USA. O estatuto de aliado, agora virou estatuto de colônia subalternizada.

A Europa, desde Munique, internalizou a sua submissão voluntária aos USA. O acoelhamento foi flagrante e vexaminoso, ao mesmo tempo.

Vocês notaram algum comentário crítico nos jornais brasileiros? Zero. Mutismo total. Na presente conjuntura, eles preferem derrubar o Supremo, tomando como ponto fraco o ministro Toffolí. Mas isso é outro papo.

Após 1945, a Europa Ocidental aceitou a proteção estadunidense no contexto da Guerra Fria, mas mantinha um orgulho civilizacional. Em países como a França, havia uma tradição de autonomia estratégica. De Gaulle é o exemplo clássico.

Onde estão os De Gaulle de hoje? O que já foi uma aliança assimétrica, agora se revela uma relação de dominação explícita. Pior: consentida e resignada.

A Europa, com economias já estagnadas ou em crescimento anêmico (a Alemanha, a “locomotiva”, enfrenta sérias dificuldades estruturais), compromete-se a gastar centenas de bilhões em Defesa.

Inacreditável!

Esse dinheiro é desviado de investimentos cruciais em saúde, educação, infraestrutura e transição energética. Num continente com populações envelhecidas e sistemas de bem-estar social sobrecarregados, cortar ou redirecionar esses fundos é jogar gasolina numa fogueira social.

A insatisfação popular já se manifesta na ascensão de partidos demagógicos de extrema-direita, que questionam exatamente essa subordinação avassaladora.

A sabotagem ao gasoduto Nord Stream é o cerne da questão. A destruição dos gasodutos, ocorrida em setembro de 2022 (governo Biden), foi um ato “vil e criminoso”. Investigações jornalísticas (como as do bravo Seymour Hersh) e declarações de oficiais apontaram fortemente para o envolvimento dos USA (obra da Marinha), com apoio logístico-militar de aliados.

Através deste gasoduto, a Europa comprava gás muito barato da Rússia.

Hoje, a Europa se submete à compra de Gás Natural Liquefeito (GNL) estadunidense – muito mais caro, sem contar o frete naval caríssimo e complexo.

Isto não é apenas uma troca de fornecedor. É um golpe devastador na competitividade da indústria europeia (especialmente a alemã) e um aumento do custo de vida para as famílias. É a Europa pagando um tributo energético aos USA, financiando a “guerra cultural” trumpista com seu próprio empobrecimento e vexatória humilhação.

A adesão da Europa às sanções contra a Rússia, mesmo sofrendo danos econômicos muito superiores aos dos USA, é vista não como um ato de solidariedade, mas como uma obediência aos ditames de Washington.

A pressão de Trump para que a Europa aumente seus gastos militares não é apresentada como um fortalecimento da autonomia europeia, mas como a obrigação de pagar mais caro por um escudo – a OTAN – cujo comando e estratégia permanecem firmemente em mãos USA.

É o “pagamento pela proteção” dentro de um sistema que já não protege os interesses industriais, políticos e sociais europeus.

Ao contrário, fragiliza e mina todo o tecido social da velha Europa.

O resultado patético da Conferência de Munique, sob esta luz, é a encenação pública dessa impotência.

Os líderes europeus discursam sobre valores e unidade, mas voltam para casa a implementar políticas que os enfraquecem, sob o olhar complacente de uma potência que os vê, cada vez mais, como um mercado cativo e um escudo descartável.

A grande questão que fica é: até quando esse modelo deformante se sustentará sem um colapso social e político na Europa?

Cristóvão Feil

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