
Por ali, todos passaram a chamá-lo apenas de “O Passageiro”.
É um cachorro de porte médio, pelagem clara já um pouco encardida pelo tempo, olhar distante, como quem vive com a cabeça presa em outra cena. Surgiu na rodoviária do centro no final do ano passado. Chegou, escolheu o banco número 6… e ficou.
No primeiro dia, tentaram enxotá-lo, achando que fosse só mais um cão de rua procurando abrigo. Ele saiu por alguns minutos, deu a volta… e voltou para o mesmo lugar.
No segundo dia, jogaram água. Ele se afastou, sacudiu o corpo… e retornou novamente. Sempre o banco 6.
Com o tempo, os funcionários começaram a perceber que não era teimosia nem acaso. Era espera.
O Passageiro passa o dia inteiro deitado naquele canto. Só se levanta quando um ônibus encosta na plataforma. Aí corre até a porta, observa atentamente cada pessoa que desce — rosto por rosto — como se procurasse alguém específico. Quando o último passageiro passa, ele baixa a cabeça e volta, em silêncio, para o banco 6.
Alguém comentou que ele teria chegado ali com um senhor. O homem embarcou em um ônibus… e nunca mais voltou.
Talvez tenha ido embora para outra cidade.
Talvez tenha adoecido.
Talvez tenha partido para sempre.
Ou talvez, simplesmente, não tenha mais voltado.
Mas o cachorro voltou. Todos os dias.
Já se passaram cinco meses.
Nesse tempo, a rodoviária aprendeu a cuidar dele do jeito que dá. Um motorista deixa restos de lanche. Uma balconista leva água fresca no fim da tarde. Uma funcionária da limpeza cobre o chão com papelão nas noites frias. Quando chove, alguém empurra discretamente uma caixa para protegê-lo do vento.
Ele aceita tudo com a mesma calma. Nunca late. Nunca rosna. Nunca tenta seguir ninguém.
Ele só espera.
À noite, quando o movimento diminui e os últimos ônibus partem, O Passageiro se encolhe no banco 6, como se estivesse guardando aquele lugar para alguém que prometeu voltar.
Alguns dizem que ele deveria ser levado para um abrigo. Outros acham que alguém deveria adotá-lo. Mas quem convive ali sabe: se tirarem o Passageiro daquele banco, não estarão dando um lar — estarão quebrando uma promessa que só ele ainda leva a sério.
Porque existem despedidas que os humanos esquecem…
E lealdades que os cães nunca abandonam.