No bairro de Vicente de Carvalho, distrito de Irajá, zona norte do Rio de Janeiro, muitas crianças, de famílias humildes e pobres, moradoras nas comunidades existentes na região, aprendem música. E tocar variados instrumentos. Normalmente também se alimentam. Ali funciona o Centro de Música Jim Capaldi. A responsável por tudo, ao lado de uma de suas filhas, durante mais de uma década, se chama Ana Campos, ou melhor, Ana Paula Capaldi. Conhecida como Aninha. Natural da Bahia, é a viúva de um dos maiores músicos, bateristas, da história da música pop, um dos fundadores da lendária banda inglesa nos anos 70, também uma das primeiras influenciadoras do chamado rock progressivo, chamada Traffic. Seu nome: Jim Capaldi. Ela o conheceu, quando o músico visitou Salvador, se casaram em 1975, tiveram duas filhas, Thabitha e Thallulah. Ele Iniciou sua carreira solo com este ótimo álbum, ,” Oh How We Danced”, em 1973. Teve uma carreira brilhante, gravando com músicos importantes, entre eles George Harrison, muito lembrado, quando fizeram a versão em inglês da canção “Ana Júlia”, do grupo brasileiro ” Los Hermanos”. No ano de 1984, tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente numa noite que ele voltava de um show de uma modesta casa noturna no subúrbio carioca, ao lado do Richie, seu grande amigo. Foi no então badalado bar no chamado ” Quadrilátero Noturno do Leblon”, o Real Astoria, esquina da Av. Ataulfo de Paiva com a R. Aristides Espínola. Estava acompanhado da atriz Cláudia Alencar e do grande amigo, o baixista, que perdeu a vida anos atrás num acidente, Tavinho Fialho. Chegaram o poeta Chacal e o ator/músico Evandro de Mesquita. Eu falava um pouco de inglês, Capaldi um pouco de português. Nos entendemos. Ao me apresentar, dizendo meu nome, ele deu risada. Perguntei o motivo. Ele gostava de uma música do cantor Gilson de Souza, “Casinha Branca” , que também fez uma versão em inglês e gravou. Ele amava o Brasil, mas sempre dizia não se conformar do país ter tanta desigualdade social. Sonhava em ensinar música para pessoas carentes. No álbum acima tem uma faixa com o título ” Don’t Be a Hero”. Ele não admitia heróis. Ironicamente, usaram uma de suas músicas num dos filmes da Marvel Comics, ” Os Vingadores”. Naquela noite, também perguntei, por curiosidade, como aconteceu, na sua vida, morar na Bahia e no Rio. Ele pensou e de maneira lacônica, pelo que me recordo, respondeu: “Things Happen”. Jim Capaldi morreu em Londres no dia 28 de janeiro de 2005. E com certeza, muitas coisas aconteceram e ainda continuam acontecendo. Seu maior legado, além da sua rica obra, claro, é o ” Centro de Música Jim Capaldi”. Seu sonho, tocado, com bravura, pela Aninha, ainda, de pé, sendo realizado. Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro

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