Apenas 2 salas ainda passam o filme em Porto Alegre. Mesmo assim, não esperava tanta gente. Compro o último ingresso, o que é anunciado em alto som pela caixa. Havia outras 3 filas, coleando o átrio. Recordei quando juntava minhas parcas economias, em Moscou, e me dava o luxo de – uma vez por mês – comprar uma pequena torta de chocolate, numa barraca de rua perto onde morava. Comprara, numa tarde nevada, a última e a fila desapareceu, por encanto.

A primeira cena do filme me é familiar. Fui ao Recife, primeira, vez em 1977. Não de fusca amarelo – que ficou repousando na garagem, em Bagé – mas numa Odisseia rodoviária, cruzando o imenso país em ônibus sem banheiro e todo tipo de sobressalto, inclusive uma batida na traseira de um caminhão, quando avistei um vulto trajando preto na noite sem fim, no acostamento, perto de Feira de Santana-BA. Para não atropelá-lo, o caminhou brecou forte, não impedindo a batida do ônibus na traseira.

Lá chegando nunca tinha visto gente tão feliz, com tão pouco. Talvez nunca experimentara tanta felicidade quanto naqueles 2 meses de verão e carnaval. Banho de água em canhões improvisados, carona na lateral de fusca e quando joguei meu melhor futebol. Até uma namoradinha lá encontrei.

Tanto o premiado “Ainda estou aqui” e o provável “O agente secreto” se banham em ótimos roteiros e interpretações impecáveis dos protagonistas. O primeiro, uma atriz (Fernanda Torres), o segundo um ator (Wagner Moura).

Os roteiristas brasileiros se libertaram do modelo Syd Field, mestre queridinho de Hollywood. Nossos roteiristas aprenderam que não têm como resumir a história de um filme brasileiro nos primeiros minutos, como é a regra de ouro dos americanos. O que poderia ser uma “falha” se transformou em grande acerto: consegue situar o espectador estrangeiro da estranha realidade brasileira (principalmente da ditadura militar) e ainda cria certo mistério. Ambos os filmes têm esta característica de roteiro: o enredo demora para aparecer.

E depois a grande atuação dos protagonistas. Ambos da escola da televisão, que é muito bem executada entre nós e que garante profundidade e certa cumplicidade com o público.

No caso de Moura, a entonação é a melhor possível. Nossos atores (diretores) entenderam a revolução patrocinada por Marlon Brando e o Actors Studio, seu sussurro e, principalmente, o silêncio, conferindo grandioloquência aos diálogos.

E também os detalhes, tão importantes no cinema. “Agente Secreto” é para ser visto na tela grande, o som é bom, embora se perca um pouco pelo sotaque (que não deveria ter perdido nestes anos todos). O cinema brasileiro começou a entender sobre a importância dos detalhes, para criar o mundo paralelo e mágico do cinema.

Uma nova e promissora fase do cinema brasileiro. E que passa ao largo, afortunadamente, do Sul.

Flávio Xavier

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *