
Era a metade do dia, numa data inexata, mas que sempre será lembrada pelo iniciante jornalista. O chamado foca, se depara, no prédio das Folhas, Barão de Limeira, o já aclamado Otto Lara Resende. Passando pela porta. Ele estava acompanhado dos seus colegas Boris Casoy e Alberto Dines. Numa ousadia caipira, se dirige a ele, posso lhe estender, a mão? Principalmente, por ser agradecido, por tudo que aprendi e ainda aprendo com você. Afável, cumprimento feito, jurei nesse dia não mais lavar as mãos.

Exagero, claro. A admiração a mesma. O último 28 de dezembro, marcou 33 anos da sua morte. Lembrei. Fui ler. Antes de escrever. O mineiro nasceu em São João Del Rey, no dia 1 de maio de 1922. Sempre brincava com isso. Sempre foi precoce, aos quatorze anos ensinava francês. Aos dezoito anos, conseguiu emprego de jornalista, no periódico ” O Diário” em Belo Horizonte. De família bem formada. Seu pai, Antônio de Lara Resende, era professor, gramático e memorialista. Sua mãe, Maria Júlia de Oliveira, professora. Tiveram 2O filhos, Otto o quarto. Não sei como conseguiram tempo ocioso para ler. Pouco importa, não tinha televisão, uma chula ilação. Otto se formou em Direito. Não exerceu. Normal para os jornalistas de uma época. Trabalhou em grandes e representativos órgãos de imprensa, ao longo da sua vida, no Rio de Janeiro. Era íntimo dos cronistas mineiros. Do capixaba Rubem Braga. Mas, tenho, que não se fazia um cronista. Era mais, digamos, um articulista. Principalmente político. Com seu estilo. Único. Escrevia muito. Penso que publicou dez livros.

A maioria de contos. Um único e raro romance chamado “O braço direito” em 1964. Se fez cronista mesmo, tardiamente. Noto, curioso, em muitos registros fotográficos, sempre parecia, gestuamente, como se demonstrasse dúvidas. E tinha mesmo, tal capacidade, nos seus textos, de sempre buscar o questionamento. Mesmo com frases definitivas. Genial e impiedoso l frasista. De forma natural. Vale aqui, relembrar: ” A psicanálise é a maneira mais rápida e objetiva de ensinar as pessoas a odiar o pai, a mãe, e os amigos”. – “Devemos a Graham Bell o fato de estarmos em qualquer lugar do mundo e alguém poder nos chatear por telefone”- ” Patrão de esquerda só é bom até o dia do pagamento”. – “Sou jornalista, especialmente de assuntos gerais. Sei alguns minutos de muitos assuntos. E não sei nada”. – ” Eu escrevo todo o dia, por compulsão. Mas agora, este ano, uma das perguntas que mais me intrigam é o que vou ser quando crescer. Há em mim, um velho que não sou eu.”. – ” O humor é a grande expressão, o melhor canal para dar notícia devida da nossa tragédia interior e exterior”. E claro, a famosa “

O mineiro só é solidário no câncer”. A ele foi reputada pelo seu grande amigo, mesmo sempre brigando, o cronista Nelson Rodrigues. O Otto, até desesperado, sempre refutou que tenha escrito ou dito isso. Nada adiantou. Realmente, não existe nenhum registro, textual ou verbal, disso. Foi propagado e contado o fato, a frase, e recontada numa crônica do Nelson Rodrigues, para o jornal ” O Globo”, publicada em 1963, intitulada ” O mineiro solidário” que insistiu no ele tinha propagado. Está no livro ” A Sombra das Chuteiras Imortais”. Segundo ele, foi num sarau de grã finos, que Otto falou em alto e bom som, para a incredulidade dos convidados. Se Otto suportou Nelson, sem perder a amizade, me obrigo também, nestes tempos, a isso. Ah, Otto, também tascou algo assim: “Como brasileiro, não me sinto com direito, de ter enjôo durante o vôo”. Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro