
Da infância entre livros às coberturas do poder no Brasil, Ana Flor construiu uma trajetória guiada pela ética e pela precisão
Há pessoas que atravessam o mundo com os olhos atentos, como quem nunca se acostuma demais com o que vê. Ana Flor é assim. Observadora, curiosa, silenciosamente determinada. Em tempos de vozes altas e certezas apressadas, ela construiu sua trajetória com escuta, preparo e uma ética quase artesanal de fazer Jornalismo. Sem alarde, sem atalhos. Com profundidade.
A caçula Ana Cristina Flor nasceu em 18 de abril de 1975, em Candelária, no interior do Rio Grande do Sul, mas saiu de lá antes mesmo de poder guardar lembranças próprias da cidade. Filha de professores, o pai, Elmer Flor, vindo de uma família de pastores luteranos; a mãe, Erna Hubler Flor, educadora por vocação, cresceu em um ambiente onde o estudo não era uma escolha, mas um valor estruturante para os três filhos do casal.
A casa não tinha excessos materiais, mas era abundante em livros, conversas e incentivo ao pensamento crítico. Era ali, desde cedo, que se desenhava uma relação profunda com o conhecimento e com o mundo.
Até os 10 anos, Ana viveu dentro do campus da escola de Teologia da Igreja Luterana, em São Leopoldo. Um espaço seguro, coletivo, quase comunitário, onde primos, tios e amigos dividiam não só o cotidiano, mas também uma certa ideia de pertencimento. A infância foi atravessada pela fé, vivida com abertura e sem rigidez, e por uma noção clara de liberdade: a de poder perguntar, explorar e aprender.
Exploradora do mundo e de si
Talvez por isso, antes mesmo de decidir o que estudar, decidiu ir ao mundo, incentivada pela mãe. Ao concluir o Ensino Médio, acompanhou o pai em uma temporada de estudos na Austrália. Achava que já sabia inglês; descobriu que ainda havia muito a aprender, sobre a língua, sobre outras culturas, sobre si mesma. Pouco depois, com cidadania alemã, foi para a Alemanha, onde viveu mais uma experiência formadora. Viajar, para Ana, nunca foi fuga, sempre foi método.
Quando voltou ao Brasil, deu aulas de inglês, estudou para o vestibular e ingressou no curso de Jornalismo da Unisinos, que ficava ao lado da sua casa. Não tinha ainda uma vocação fechada, porém, sabia o que a atraía: a variedade, o movimento, a possibilidade de aprender todos os dias algo novo. “O que eu gostava era isso: nenhum dia é igual ao outro. Tu estás sempre aprendendo”, resume.
Logo no início do curso, estagiou na Rádio Unisinos. Era apaixonada por rádio, mas uma experiência no Jornal NH mudou o rumo da sua trajetória. Foi ali, no texto, na reportagem, que se apaixonou de vez!
As passagens pelo impresso do Grupo Sinos e, depois, por Zero Hora foram decisivas. Ana foi forjada na redação: polícia, meio ambiente, editoria de geral, coberturas especiais, força-tarefa na Copa do Mundo, editoria de Mundo logo após o 11 de Setembro. Aprendeu com mestres do jornalismo gaúcho, como Carlos Wagner, Humberto Trezzi, Nilson Mariano, em uma redação que funcionava como escola, daquelas que ensinam técnica, ética e coragem.
Brasília, naquele momento, já pulsava como destino. O poder sempre exerceu sobre ela uma curiosidade quase magnética: entender como as decisões são tomadas, quem as toma e a que interesses elas servem.
Surgiram as bolsas internacionais, os períodos de estudo e trabalho nos Estados Unidos, a temporada na Alemanha escrevendo como correspondente. Veio, então, Brasília, e, com ela, a cobertura política em sua forma mais crua e exigente. Na Folha de S.Paulo, acompanhou crises, escândalos, quedas de ministros, Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) e o Palácio do Planalto em ebulição. Em um ambiente ainda profundamente masculino, aprendeu a se impor sem perder a delicadeza, a estabelecer limites claros entre fonte e amizade, a lembrar todos os dias que a fidelidade do jornalista é, antes de tudo, com a informação e com o leitor.
Foi assim que, em um almoço com um namorado há alguns anos, Ana percebeu que a mesa ao lado reunia personagens demais para serem ignorados: o então governador “tampão” do Distrito Federal, Paulo Octávio, que substituía provisoriamente José Roberto Arruda, destituído do cargo. Octávio estava acompanhado por alguém que, à primeira vista, parecia um desconhecido. O instinto falou mais alto. Ana reconheceu o rosto: era um dos mais conhecidos gestores de crise do país.
A conversa com o namorado foi interrompida pela urgência da apuração. A renúncia de Paulo Octávio começou a ser escrita ali mesmo, à mesa, confirmada pouco depois em contato com as fontes. O telefonema de parabéns do próprio conhecido gestor de crise veio horas depois, como um selo silencioso de que o furo estava dado. “A gente tem que estar sempre pronto”, resume.
Além das fronteiras
Ana não romantiza Brasília. Conhece seus jogos, seus excessos, suas armadilhas. Mas entende que é ali que o Jornalismo precisa ser ainda mais rigoroso. Foi nesse espírito que, em um movimento pouco comum, pediu demissão da Folha de SP e foi morar em Nairóbi, no Quênia. Durante dois anos e meio, cursou mestrado em Relações Internacionais, cobriu guerras civis, fóruns globais, conferências ambientais, produziu reportagens para veículos brasileiros e iniciou colaborações com a Globo. Subiu montanhas, atravessou territórios, colocou literalmente o pé no chão. Aprendeu que o mundo é maior, e mais complexo, do que qualquer redação.
De volta ao Brasil, seguiu cobrindo o poder em diferentes frentes: eleições, governos, economia, agências internacionais e bastidores. Passou pela Reuters, viveu o outro lado da informação ao atuar no Ministério da Fazenda, assessorando o titular da pasta, Henrique Meirelles. Um MBA informal em economia, diplomacia e gestão pública. Uma experiência que não a afastou do Jornalismo, ao contrário, a tornou ainda mais preparada para analisá-lo.
De repente, TV
Quando chegou à GloboNews, em 2018, fez algo que parecia improvável: estreou na televisão sem nunca ter feito TV antes. No entanto, Ana nunca acreditou que o Jornalismo muda conforme a plataforma. Para ela, a essência é a mesma: apurar, checar, contextualizar. Hoje, comentarista do canal e colunista do G1, mistura informação e análise com precisão, responsabilidade e clareza. Ao vivo, sob pressão, com decisões que precisam ser tomadas em segundos, sempre sustentadas por uma bagagem construída ao longo de décadas.
Ana sabe que nem sempre a notícia está apenas no fato em si, mas na forma como o poder reage a ele, especialmente quando a imprensa é colocada em xeque. Em um dos episódios recentes que a marcaram, ela se viu tomada por um sentimento raro, quase um desabafo.
“O que mais me indignou foi o tratamento dado à imprensa”, diz, ao relembrar a condução após um protesto na Câmara dos Deputados, quando jornalistas que trabalhavam no Salão Verde foram empurrados com truculência para fora do local, em um episódio que as associações Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Nacional de Editores de Revistas (Aner) e Nacional de Jornais (ANJ) classificaram, em nota conjunta, como “incompatível com a liberdade de imprensa”.
Para Ana, a decisão de cortar o sinal da TV Câmara e a atuação da polícia legislativa expuseram algo mais profundo do que um conflito pontual. “A imprensa foi tratada sem respeito ao seu papel democrático. O jornalismo profissional está ali como os olhos da população”, afirma. A experiência de quem cobre o Congresso há décadas permite identificar rapidamente quando limites são ultrapassados e, nesses momentos, ela acredita que é preciso reagir. “Se a gente não reclama, as pessoas não percebem quando o direito da imprensa é atropelado”, completa.
O que permanece
Apesar da visibilidade, Ana segue discreta, pois não se vê como celebridade. Prefere que a notícia seja protagonista. Cultiva amizades, preserva a intimidade, divide a vida entre Brasília e o Rio de Janeiro, onde mora o namorado, cuida dos gatos adotados, mantém hábitos simples. Gosta de comida caseira, de biografias, de viagens sempre que possível. Carrega a fé cristã de forma íntima, curiosa e respeitosa, interessada no diálogo entre religiões, especialmente as de matriz africana. Mantém uma rotina intensa de trabalho e exercícios físicos, consciente dos limites do corpo e da mente.
Ana Flor é crítica consigo mesma, exigente, às vezes dura. Porém, talvez seja justamente essa inquietação que a mantenha em movimento. Ela diz que a melhor cobertura ainda está por vir e acredita nisso com convicção. Não planeja demais o futuro. Aprendeu que a carreira se constrói nas curvas, nas escolhas improváveis, na coragem de recomeçar.
Da menina criada entre livros e perguntas à jornalista que hoje analisa o poder para milhões de brasileiros, há um fio invisível que nunca se rompeu: a curiosidade. Ana Flor, no fundo, segue sendo repórter. E talvez seja isso que a torne tão essencial.
Autor

Márcia Dihl
Coletiva.net