


Nos barzinhos de música ao vivo, de todo país, ele ainda sempre aparece. Se vivo estivesse hoje, talvez jurasse que estaria completando 114 anos, e não 116 que seriam oficiais, e que seu neto garante ter tido a comprovação em um cartório de Campinas. Afinal, ele nasceu, como João Rubinato, em Valinhos, na época uma província campineira, em 6 de agosto de 1910. Ele, sempre bonachão e divertido, dizia que seus pais conseguiram o registro do seu nascimento com dois anos retroativos, para que pudesse, uma criança, trabalhar numa fábrica. Na verdade, ele ajudava a renda da família entregando marmitas, na então pequena cidade do interior paulista. Péssimo na escola, era gazeteiro, tanto que acabou deixando os estudos. Mas dizia que aprendeu matemática quando entregava bolinhos: ” sabia contar… se tinha 8, por exemplo, tirava 2, mataria minha fome. E 6 mataria a fome do cliente”. A vizinhança, que o adorava, não ligava. Seus pais, Francesco e D.Emma, eram italianos da comuna de Cavarzere, província de Veneza, onde se casaram. Chegaram no porto de Santos em 1895, e logo foram para o interior do estado para trabalhar na lavoura. E o menino começou a rodar: morou em Jundiaí, Santo André, São Paulo. Seu sonho era ser ator de novelas de rádio. Ou trabalhar no cinema. Fazia testes e era sempre reprovado: não sabia o português direito, e os apresentadores e produtores não gostavam da sua voz. Até que se descobriu compositor. E adotou o nome que marcaria a história da MPB para sempre: Adorinan Barbosa. Pegou o nome de um colega de farra e outro cantor carioca, renomado na década de 30, Luís Barbosa, de quem era fã. Pela vias dessas, com o sucesso de “Saudosa Maloca”, ” Trem das Onze”, gravado pelo grupo ” Demônios da Garoa”, conseguiu realizar seu sonho de ser ator e comediante. Estreou no filme chamado “Pif Paf”, do diretor Luiz de Barros, ao lado de Walter D’Avila e da cantora Marlene, depois fez com o mesmo diretor ” “Caídos do Céu”, com roteiro de Herivelto Martins, ao lado da Dercy Gonçalves. Foi chamado para fazer ” O Cangaceiro”, pelo cineasta Lima Barreto, ao lado do ator Milton Ribeiro. Mas foi, como um verdadeiro cronista do samba que se consagrou. Se o samba carioca cantava o morador do morro e o malandro do asfalto, Adorinan narrava a pobreza do suburbano paulistano e as dificuldades dos operários das fábricas. Chamado até pelos seus confrades e compadres de ” Pai do Samba de Paulistano”, empregou seu estilo de falar, com sotaque italianado, do Bexiga, com gírias próprias daquela região. Mesmo de origem italiana, amando futebol, não era palestra. Era “curíntia” como pronunciava. Fanático. Fez até música, quase um hino. No ano de 1980 deu um inesquecível show no SESC da Consolação, já com problemas de enfisema, pois fumava muito, uma das suas últimas apresentações. Foi em janeiro, o Corinthians se preparava para conquistar o título do Campeonato Paulista, do ano anterior. Fui gravar uma fala sua, um depoimento, para uma reportagem do Esporte Espetacular, na TV Globo. Ele sempre bem humorado: “…nasci em 1912, mas escolhi ter nascido em 1910, para fazer aniversário junto com meu amado Curíntia”. Viva Adorina! Vai Barbosa! Com Deus.


Na fé. Até. Saravá.

Gilson Ribeiro